Poesia da despedida
Confesso nunca ter sido íntimo das poesias, embora sempre admirasse os poetas, pois acima de tudo, são pessoas que amam de maneira demasiada. Enxergam a vida de forma profunda e sutil. Como não lembrar de Mário Quintana? “Eles passarão, eu passarinho”. Simples assim. Quanto significado os poetas conseguem por em tão poucas palavras. E na semana que passou, recebi de um amigo, uma espécie de “poesia da despedida”. Uma mensagem cheia de significados.
Florbela Espanca
O nome dessa conterrânea de meu amigo português Luis Diabão, que do sobrenome nada tem, era em verdade Flor Bela Lobo, mas ela preferiu adotar outro nome: Florbela d`Alma da Conceição Espanca. Particularmente, um nome que me traz muitos significados. A poetisa portuguesa definiu a poesia como sendo: pedaços de sorriso, branca espuma, gargalhadas de luz, cantos dispersos, ou pétalas que caem uma a uma… Sua biografia é intensa e contundente para quem interrompeu a própria vida aos 36 anos. Mas sua obra permanece tocante, até os dias de hoje.
A mensagem
Na segunda-feira, recebi de um querido amigo, desses com quem a gente troca confidências e reflexões profundas, uma mensagem que só fui ouvir na madrugada da última quarta-feira. Entre outras palavras, ele queria saber sobre as minhas experiências. Como sempre o fazia, me recomendou a leitura de dois livros: “A lógica do cisne negro” e “O novo iluminismo”. Ao se despedir, recitou o poema Vaidade, de Florbela Espanca, que faço questão de reproduzir.
“Sonho que sou a poetisa eleita. Aquela que diz tudo e tudo sabe, que tem a inspiração pura e perfeita, que reúne num verso a imensidade. Sonho que um verso meu tem claridade, para encher todo o mundo! E que deleita, mesmo aqueles que morrem de saudade! Mesmo os de alma profunda e insatisfeita! Sonho que sou Alguém cá neste mundo… aquela de saber vasto e profundo, aos pés de quem a Terra anda curvada! E quando mais no céu eu vou sonhando, e quando mais no alto ando voando, acordo do meu sonho…e não sou nada”.
Desdobramentos
Fui dormir pensando nas respostas que daria ao meu amigo. Ao acordar, peguei o telefone para lhe gravar uma mensagem. À noite, lembro de ter sonhado com ele. Estava tudo pronto. Palavras alinhadas como um comboio. Mas ao pegar o telefone, vi que poucos minutos depois de ter adormecido, um outro amigo em comum me avisava de seu falecimento. Levei um susto. Eu estava com a mensagem presa na garganta. Tinha coisas lindas para dizer ao meu amigo. O silêncio me tirava o fôlego. Fiquei pensativo. E ainda estou. Ouvi a mensagem dele outras vezes e, por fim, me senti lisonjeado por aquela que talvez tenha sido a sua poesia de despedida.
Despedidas
Naquela madrugada, havia terminado de editar um programa de rádio, que falava justamente sobre as despedidas. Interrompi a edição para ouvir a mensagem do Cláudio. Isso tudo me deixou muito impactado com a beleza da vida. Eu poderia ter escutado a mensagem ainda na segunda-feira, ou mesmo durante a terça. Mas não. Ela me veio num momento de muito sincronismo. É por essas e outras que eu acredito muito nas amizades, nos sinais que a vida dá e sobretudo, na importância que devemos dar a quem faz a diferença em nossas vidas. Tudo mudou de repente. De agora em diante, minhas conversas com o Cláudio serão por meio de orações. Vou pedir auxílio à Nossa Senhora de Caravaggio. Ela não vai desamparar seu dedicado devoto e quem sabe, fazer chegar a ele, minha profunda admiração. Siga sua jornada meu amigo!!!