Nossa memória guarda muito do que vivemos.
Por vezes, algo de que nem imaginamos ter vivenciado, escapa de nosso baú e vem à tona trazendo sensações, lembranças, sons e sabores.
As lembranças nos pegam desprevenidos, e, num repente a memória tagareleia sem parar, e mesmo que não o queiramos, voltamos no tempo bom ou não, do já vivido.
Gosto demais de ler desde menina. Houve um acontecer que me colocou diante de um famoso autor e, de imediato, audaciosamente, me identifiquei com ele e seu modo de escrever, isto é, cheio de minúcias, detalhes e sensações. De 30 de novembro de 2022 a 18 de março de 2023, aconteceu na Biblioteca Pública de Porto Alegre, uma exposição primorosa sobre os “Cem anos da morte de Proust”. Não vi o evento, que foi muito divulgado e elogiado. Busquei em todas as livrarias algo sobre Prost. Nada. Somente meus amigos Vitor Fasolo e Dr. De Lucca possuíam um livro, já esgotado, Dr. De Lucca me emprestou esse livro.
Mergulhei “No caminho de Swan”. Leitura dificílima, mas, eu como arqueóloga perspicaz e incansável, fui conversando com Marcel, perguntando, às vezes sem obter respostas fui desafiando-me e aos poucos encantando-me e me sentindo por fim muito parecida no modo de ver e sentir do francês.
Parafraseio trechos da obra que me levou a conhecer-me também: a Madeleine mergulhada no chá de tília é uma das famosas imagens da obra “EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO” fiquei sabendo que a “Madeleine” é um delicado bolinho de farinha, açúcar, ovo e manteiga, em formato de uma conha. Dizem os analistas que tudo é beleza e encantamento no texto de Proust. “Dr. Gilberto Schwartmann, afirma que Proust é um autor que pode falar de romance por meio do namoro entre flores, ou de sexo ao descrever o penetrar dos galhos de um arbusto por entre florestas da janela”.
Eu tive plena certeza do como minhas lembranças renasciam ou emergiam do baú da minha memória, ao ler o relato de Proust.
No “Caminho de Swann”, Proust narra que ao mergulhar o pão torrado, em uma noite gelada, na xícara de chá, foi invadido por emoção, perfumes de gerânios, laranjeiras, sensação de felicidade, e foi nesse momento que as lembranças chegaram num rolar sem parar de tudo o que havia vivido, bem como suas experiências afetuosas mais profundas e simbólicas.
Nunca provei uma madeleine. Entretanto, ao ver na vitrine de uma padaria uma bandeja de grostolis, involuntariamente, minha memória colocou minha mãe Graciosa em cena, defronte a mesa de madeira sobre a qual há um lindo algodão de farinha, onde suas abençoadas mãos amassam e depois desenham os belos grostolis para depois colocá-las com carinho no óleo quente. Ela os observa com atenção, virando-os cuidadosamente para não queimar. Há depois o polvilhar com açúcar e está pronta uma enorme bacia de deliciosos grostolis, para os avançados filhos ou visitas degustarem alegremente. E, não duram muito, são comidos num piscar de olhos.
A memória grita agitada, igualmente, ao observar nas confeitarias, pacotinhos com mirrados merengues. Lembro nitidamente de mãe Graciosa, com seu lindo avental, sentada, com uma bacia de louça no colo, batendo e batendo, à mão, os ingredientes para o mais leve e gostoso doce que ela fazia: o branquíssimo merengue. Depois, quatro ou cinco formas eram colocadas no forno ou no forninho com os lindos doces. Bem cuidadosamente eram retirados do forno, e mãe Graciosa os contava encantada com sua suavidade e beleza. Eram guardados em grandes potes de vidro e fechados, onde ficavam a tentar a nossa gula. Grostolis e merengues que nunca mais serão tão saborosos como aqueles.