De uma dona de casa, de Divinópolis, Minas Gerais, chegou-me, através do Dr. Alcides da AEL, um magnífico texto que parafrasearei pois diz muito do que eu lembro dos meus "preferidos".
Essa mulher que se classificava como dona de casa, chama-se Adélia Luiza Prado de Freitas, nascida em 1935. Poetisa, professora, filósofa, romancista, contista, ligada ao modernismo. Admirada e incentivada por Carlos Drummond de Andrade, começou a escrever e tornou-se aos 40 anos, um nome nacional.
Vez ou outra, um odor, uma, flor, uma canção, uma frase faz-me recordar de algo já esquecido, ou escondidinho no meu Baú da memória. Aprendi com o caminhar na vida que, como diz Amélia, quando mais vivemos, mais eternidades criamos dentro da gente. Usando nos damos conta, nossos baús estão recheados daquilo que amamos, daquilo que deixou saudade, também do que doeu ou do que permaneceu além do tempo.
Quando penso nos que amei, do que gostei, ou odiei, percebo, como afirma a poetisa, que a memória é contrária ao tempo. Enquanto o tempo leva a vida embora como vento rápido, a memória traz de volta o que nos marcou, bom ou mau, eternizando momentos.
Por ora, prefiro deixar a memória contar, e recontar dos meus personagens amados e favoritos. Em um lugar especial, os livros.!
Na infância, eram raros, porem, eu lia tão logo aprendia a historinha do Jeca Tatu, tão pobre (como eu) tão sujinho (eu não era, sempre fanática por limpeza). Logo a seguir, o Huguinho, Zezinho e Luisinho, os exemplares escoteiros que eu amava. O Pato Donald, era lido, pois queria defendê-lo do Gaston, o primo pretencioso. Tio Patinhas, recebia meu repúdio pelo seu pão-durismo. Minie e Mickey, outros meus queridos. Quando me emprestavam histórias, mesmo velhas, do Riquinho, eu ficava divagando como seria bom ser uma riquinha!!
A memória falou agora e lembrei quando ainda menininha, 6 anos, eu adorava ir à casa da nona Garcez e ouvir tia Jança nos contar as Histórias do Sítio do Pica Pau Amarelo. As peraltices de Emília e o Anjinho me encantavam.
O encontro com Veríssimo, foi marcante! Ocupou um belo lugar na prateleira de favoritos. "Olhai os livros do campo" me emocionou demais. Ao ler "Clarissa" eu tive certeza de ter compreendido o que era o amor "puro". A mesma certeza que tive aos 14 anos, quando ficava no portão de casa fingindo varrer a calçada, somente para ficar olhando de longe o rapazinho que me olhava também. Depois mais tarde um lindo sentimento crescendo ao espiar, num vão da cortina o então já rapaz, sem nunca tocar suas mãos, sempre lembrando sua voz, embora a tendo ouvido 5 ou 6 vezes. Entendi, ao ler Clarissa, o que era o amor, o que me fez saber que aquele rapaz fora meu verdadeiro amor.
Muitos autores foram meus favoritos. Centenas, Gabriel Garcia Marques foi um deles, em especial com os Buendia e a pobre Sofia guardada na gaveta. Amei tanto Ernest Hemingway, que quando visitei Cuba, fiz questão de entrar no "La Bodeguita" e perguntar onde ele costumava sentar-se. Como aprendi e cresci lendo "Por quem os sinos dobram" e os demais de sua autoria.
De sua amada Lanzarote, despediu-se o gigante Saramago, por quem me apaixonei ao ler “Memorial do Convento” e outro, e outro! Já pretendia fechar o baú, por agora, mas um aceno chamou minha atenção. É Pearl Buck, com quem fiz duas faculdades sobre a história e cultura do Japão e da China! Fantástico aprendizado!!
Um sussurro meio zangado veio do meu baú... É Marcel Proust que segura em uma mão uma xícara de chá e na outra, uma Madeleine. Calma, calma Marcel!! Logo, brevemente...! Para você, não bastam três laudas de memórias.
- Historiógrafa, Pesquisadora, Escritora, URI.
- Membro da Academia Erechinense de Letras.