Dias atrás, resolvi fazer uma caminhada de casa para o trabalho, prática que desde que descobri a segunda gravidez, havia deixado de lado. No percurso me deparei com diversas cenas e “causos” de pessoas que conversavam pelas ruas. Um desses episódios chamou minha atenção mais afundo, pois, uma mãe contava para a filha: “ficou sabendo que o filho da fulana tem problema? Pois é, descobriram há pouco tempo”. Não sei qual era o dito problema que a senhora se referia, mas minha dúvida foi a respeito de porque aquilo fazia parte do assunto delas.
Parei e pensei, qual a necessidade de introduzir em uma roda de conversas os diagnósticos dos outros. O porque fulana tem câncer ou ciclana está tomando medicamentos para crises de ansiedade. Todo o processo é tão particular de cada um, que não precisa ser debatido por terceiros. O “luto” enfrentado após uma notícia inesperada em um consultório médico já dói o suficiente e não precisa ser disseminada por gente que apenas tem curiosidade de saber sobre e não ajuda em nada.
Respeito quem compartilha condições e jornadas de tratamentos de saúde em redes sociais, mídias, campanhas, mas precisamos atentar também àqueles que preferem o resguardo, simplesmente pelo fato de optarem por não ter uma plateia e apenas seguem com suas vidas após um diagnóstico, pois na maioria das vezes junto com ele vem diversos rótulos, como esse que a senhora se referia, que a criança “tinha problema”.
Ao invés de “Pedro” ser chamado por seu nome, ele vira: o cadeirante. “João” se torna o que tem câncer. “Bruno”, o autista. “Cláudia”, a depressiva. “Maria”, a suicida. E por aí vai. Quem nunca usou a referência para falar de uma pessoa, “a gordinha”, “a preta”, a “esquisita”? Pode ser que isso acontece sem intenção de magoar, mas é chegado o momento de cessar e calcular as palavras que proferimos e o impacto que elas podem causar na vida dos outros. As pessoas não são, elas possuem, e isso não as faz mais ou menos que ninguém, nem modifica seu caráter ou capacidade!
Se ao invés de falarmos rotulando, nos voltássemos para as nossas realidades, perceberíamos que temos muito a evoluir, pois enquanto apontamos um dedo ao outro, outros quatro sobram voltados em nossa direção.