Bom Dia: Qual é a importância do Setembro Amarelo criado em 2014?
Lisandra: A principal importância da campanha é a conscientização sobre a prevenção do suicídio, a qual é dedicada à valorização da vida e que busca alertar a população a respeito da realidade da prática no Brasil e no mundo.
Bom Dia: A depressão é a maior causa de suicídio. Por que existe um preconceito/tabu tão forte contra esse mal? Por que muitas pessoas pensam que depressão não existe ou é falta de Deus?
Lisandra: O preconceito a respeito de qualquer assunto denota ignorância e sempre é uma opinião desfavorável. Baseia-se unicamente em um sentimento hostil, motivado por hábitos de julgamento e generalizações apressadas. A mãe do preconceito é a pouca informação. No caso específico da depressão, no mais das vezes, a doença vem acompanhada da vergonha do diagnóstico. Demais disso a recusa do tratamento medicamentoso e a aversão a psiquiatras também estão incluídas nesse tipo de discriminação.
O impacto na autoestima do paciente também deve ser levado em consideração por estar associado a um maior risco de depressão e suicídio.
Trata-se de uma doença que assola um número cada vez maior de indivíduos e que até recentemente não era debatida no ambiente público. Os sintomas podem – de forma equivocada - ser vistos como sinal de fraqueza e por conta dessa falta de informação a doença acaba sendo vista e taxada como frescura ou falta de vontade.
Quanto à alegada falta de Deus é mais um dos argumentos preconceituosos e dissociados da realidade proclamados por aqueles que pouco ou nada entendem do assunto. Num mundo onde a informação é superficial e a tendência em apontar o dedo e fazer julgamentos não é incomum, tais argumentos se espalham como se verdade fossem.
Bom Dia: Como nós, cidadãos comuns, leigos no assunto, podemos ajudar na prevenção de suicídios? Como perceber os sinais de um potencial suicida?
Lisandra: Auxiliar na prevenção do suicídio é, antes de tudo, promover a vida. É necessário falar sobre o tema para minimizar mitos, tabus e tratar o assunto com a seriedade que exige. Práticas como doar um pouco do seu tempo para escutar o outro sem interrupções, sem pressa e sem julgamentos é importante. Evitar comparações, acolher e não oferecer soluções prontas e se dispor a ajudar são práticas importantes.
Não podemos esquecer que incumbirá às pessoas próximas e aos familiares identificar, num primeiro momento, sintomas como desesperança, alterações extremas no humor, sentimento de vingança, irritabilidade e sentimentos intensos de culpa, contudo, apesar da boa vontade que tais pessoas possam ter, o tratamento adequado sempre caberá a um profissional da área, seja médico ou psicólogo. Faz-se necessário que as pessoas entendam que o simples conversar é importante para que a pessoa que está com depressão ou em sofrimento dê um primeiro passo, porém, aquele que não é habilitado ou não reúne capacidade técnica não pode pensar que sua intervenção curará o doente. Ou seja: o auxílio do profissional de saúde é imprescindível.
Aliás, não são raras as situações onde um familiar, na ânsia de querer ajudar acaba fazendo comentários ou dando conselhos que acabam por prejudicar o estado de saúde de quem já está em sofrimento.
Costumo dizer que o melhor conselho que o familiar pode dar é que estará ao lado do ente querido durante a caminhada em busca da cura e que, o quanto antes, o estimule a procurar o profissional adequado. Depressão não é brincadeira. Depressão não se cura com conselhos ou achismos. Depressão não se cura comparando o paciente com outras pessoas.
Na minha trajetória profissional me deparei por diversas vezes com pessoas que ao escutarem que o diagnóstico de seu familiar era depressão tentavam “ajudar” se utilizando de frases descabidas, tais como: “Ele tem de tudo”, ou “Ele é um profissional respeitado”, ou ainda “Ele conseguiu juntar bastante dinheiro”.
Esse comportamento deve ser repudiado. Trata-se de verdadeiro absurdo que em nada ajuda. Pelo contrário. Faz com que a pessoa depressiva se sinta ainda mais inferiorizada.
Ora, sendo a depressão uma doença, qual a relação entre ela e a posição social ou o dinheiro?
Se o seu amigo ou familiar tivesse um quadro grave de diabetes ou até mesmo de câncer você perguntaria a ele “por que você sofre se tem dinheiro e posição social?”. É óbvio que não! Então por que para o depressivo se faz esse tipo de pergunta? Respondo: por ignorância.
Bom Dia: Por quê há pessoas que acreditam que psicólogos não podem ajudar e pensam que só a religião pode salvar pessoas da depressão? Como explicar isso?
Lisandra: Ainda há muito preconceito e desinformação sobre as doenças e os transtornos mentais como a depressão e muitos outros. Depressão é uma doença e como tal precisa de tratamento adequado, assim como todos os demais transtornos. Ninguém escolhe adoecer de uma gripe, ninguém escolhe estar deprimido.
Penso que a fé – e não a religião - é uma característica extraordinária do ser humano e que ter fé nos auxilia como humanos que somos, porém, as doenças e enfermidades devem ser tratadas por quem detém experiência nisso.
Aliás, com muita tristeza se ouve e se lê a respeito de pessoas acometidas pela depressão e que iniciaram tratamentos que estavam em vias de serem bem-sucedidos até que alguém levou o doente à presença de padres ou pastores que determinaram a interrupção do tratamento sob o argumento de que apenas a religião os salvaria e que, infelizmente, acabaram cometendo o suicídio. Religiosos não são aptos a recomendar interrupção de tratamentos médicos e, inclusive, em ocorrendo algo de maior gravidade podem inclusive responder por isso. Urge, sobretudo, que religiosos tenham responsabilidade em relação a uma doença tão séria como a depressão.
Bom Dia: O quanto importante é o trabalho de um psicólogo na prevenção de suicídios?
Lisandra: É muito importante e, ouso dizer, em alguns casos imprescindível. Na psicoterapia o profissional busca entender a visão de mundo, as crenças, as aspirações e tudo aquilo que é importante para o indivíduo e que, não raro, originariamente deflagrou seu sofrimento. Portanto, a atuação do psicólogo no tratamento da depressão e na prevenção de suicídios tem por objetivo orientar o paciente a entrar em contato com suas angústias mais profundas e assim auxilia-lo a lidar com elas.
Bom Dia: O que leva uma pessoa a cometer suicídio?
Lisandra: O suicídio não tem uma causa única. Sempre envolve diversos fatores, é multideterminado. As pessoas que pensam ou tentam tirar a própria vida estão passando por um sofrimento insuportável e a dor emocional se torna tão grande que o desejo de interrompê-la é maior do que a dor física. O suicida não quer pôr fim à vida; ele quer pôr fim à dor que já há muito o acompanha.
Na maioria dos casos aquele que tenta ou comete o suicídio já procurou ajuda anteriormente. Já procurou ser ouvido, mas não teve sucesso ou não foi acolhido em seu momento de dor. Porém, há muitos casos onde múltiplas buscas e tratamentos foram tentados, no entanto, foram fracassados.
Bom Dia: Qual é a sua mensagem para as pessoas que sentem que não tem mais perspectivas de vida e que podem estar considerando o suicídio como única saída?
Lisandra: Não existe uma mensagem pronta ou formatada que possa ser dirigida indiscriminadamente sem avaliar o caso concreto e a situação de cada paciente. Cada caso exige um tipo de tratamento ou abordagem. Cada ser humano tem suas particularidades e seus sofrimentos e a eles reage de formas diferentes.
O que percebo é que a pessoa acometida por uma depressão severa a ponto de pensar em suicídio não mais possui discernimento para “enxergar o outro lado”. E este “outro lado” chamado Vida, apesar dos desafios, é belo e renasce todos os dias com inúmeras possibilidades. Porém, o paciente cego pela doença só vê o muro e não mais a janela.
Portanto, a mensagem que deixo, após minha experiência com pacientes depressivos e que venceram este mal é que na vida tudo é janela; o muro somos nós que criamos.