A importação de leite e derivados do Mercosul, oriunda principalmente de países como Argentina e Uruguai, faz com que haja uma elevada oferta de produtos no mercado brasileiro e a diminuição no preço repassado ao produtor rural.
De acordo com dados da Emater, o preço médio pago pelo litro de leite aos produtores de Erechim nas duas primeiras semanas de agosto desse ano foi de R$ 2,40. Se comparado ao mesmo período de 2022, quando o valor médio era de R$ 3,55, houve uma redução de R$ 1,15, o que representa uma baixa de 32,3%.
Segundo Walmor Gasparin, médico veterinário do Escritório Municipal da Emater de Erechim, “historicamente, no período de inverno, nós temos um aumento no valor do leite, pois geralmente há uma queda de produção, pois existe uma entressafra que vem com a finalização das pastagens de verão e o início do consumo das pastagens de inverno”.
Ainda de acordo com Gasparin, o leite se adapta à lei de mercado e a entrada do produto em grande quantidade no Brasil é o principal fator na redução na quantia paga aos produtores. “Não tem como estocar leite, é um produto que diariamente deve ser coletado, transportado e industrializado e o que será feito são os subprodutos como queijo, nata, iogurtes, leite em pó. Então, é uma questão de oferta e procura”, explica o médico veterinário.
Conforme dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) só no primeiro semestre deste ano foram mais de um bilhão de litros de leite importado.
No campo
A situação enfrentada pela cadeia produtiva é vista como desanimadora e revoltante. Marcelo Francisco Prichua, produtor rural e morador do distrito de Capo-Erê, em Erechim, trabalha com a falta de certeza e a instabilidade do mercado comercial. "Afeta em tudo dentro da propriedade, desde os investimentos já feitos até os futuros que você deixar de fazer, porque você não sabe o que vai acontecer. É uma incerteza, não existe uma luz sobre a situação", comenta Prichua.
Com um plantel de 39 vacas em lactação e uma produção média em torno de 1.200 litros por dia, Marcelo fala que o preço do leite só não é menor devido a quantidade entregue e a bonificação pela qualidade do produto feita pelo laticínio. Ele ainda relata que, em conversa com outros produtores nas proximidades, o cenário é ainda mais desafiador e que estão recebendo menos de R$ 2 por litro, valor que não cobre nem o custo da produção.
"A gente mantém a alimentação dos animais com o volumoso que tem em casa e compramos apenas o necessário como os minerais e medicamentos. O rancho de casa também só é comprado o básico. E o diesel que movimenta tudo dentro da propriedade aumentou. Não sei até quando dá pra superar. Se tiver mais queda no preço do leite não tem como se manter na atividade", expõe Prichua sobre a dificuldade dentro da fazenda.
Conforme a Emater, nos últimos cinco anos aproximadamente 6 mil produtores deixaram a atividade na região do Alto Uruguai. O município de Erechim conta com cerca de 200 produtores ativos e juntos somam em torno de 2 milhões de litros por mês.
Na indústria
Na última semana, a Aurora Coop emitiu um manifesto sobre a crise do leite recomendando que “o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) estabeleça mecanismos para regular a importação, criando gatilhos e barreiras para que seu exagero não destrua as cadeias produtivas organizadas existentes no Brasil”.
Segundo a nota, o “leite produzido no Brasil custa mais ao produtor e por consequência, ao consumidor, se comparado ao importado” e que “as próprias indústrias de processamento (laticínios) estão operando no vermelho e muitas estão utilizando matéria-prima láctea importada por extrema questão de gestão de custos”.
No governo
As soluções para acabar com a crise do setor andam em marcha lenta. O Comitê Executivo de Gestão (Gecex) da Câmara de Comércio exterior (Camex), na terça-feira (15), alterou a tarifa de Importação de 12,8% para 18%, pelo período de um ano, para queijos e óleo butírico de manteiga.
Também, a Gecex anulou uma decisão do governo anterior que havia reduzido a Tarifa Externa Comum (TEC) em 10% para 29 itens de produtos lácteos. Com isso, esses derivados terão imposto de importação variando de 10,8% a 14,4%. Iogurte, manteiga, queijo ralado e doce de leite são alguns alimentos que terão a taxação máxima.
Outra medida anunciada pelo governo federal, na quarta-feira (16), é a compra de R$ 200 milhões em leite pó. A aquisição será feita pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), em parceria com o MAPA e o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA).
“O governo como um todo está empenhado em promover o retorno à competitividade dos produtos lácteos e renda aos produtores de leite no Brasil. Vamos juntos melhorar e trazer resultados”, salienta o ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro.
Perspectivas
O cenário para os próximos meses é de incerteza e instabilidade nos preços, assim como a continuação de produtores na cadeia produtiva. “Se esse leite continuar entrando, a quadro do setor vai se prolongar. Você tem uma projeção de receita e despesas na propriedade e que isso não traga um endividamento maior, e que eles consigam se manter na atividade.”, conclui Gasparin.