Se a Europa tem seus encantos, Portugal tem seus recantos. E foi justamente em um desses “recantos”, a freguesia de Azinhaga do Ribatejo, que em 1922 viria ao mundo José Saramago, um dos maiores escritores da História. Nascido na roça, em um tempo onde a enxada travava batalhas diárias contra as ervas daninhas. Quis o destino que uma dessas ervas, de nome saramago, lhe fosse empregada como sobrenome, por obra do registrador, pois se tratava da alcunha de sua família.
A tal planta é conhecida pelo seu amargor. Seu sabor assemelha-se ao nabo e ao rabanete. Por ser rica em vitaminas e sais minerais, servia de alimento aos pobres do início do século passado. Sua flor, curiosamente assemelha-se à Cruz de Malta, símbolo tão apreciado em Portugal e que aparece no distintivo do Vasco da Gama, clube brasileiro que homenageia o famoso navegador português, responsável pela expansão marítima até as Índias.
Há muitas coincidências, simbologias e sincronismos na vida de José Saramago. Mas só quem as analisa com cuidado é capaz de perceber. Criado em berço católico, como toda a Portugal de seu tempo, ainda na infância teve de abandonar os estudos e acompanhar seus pais, que mudaram-se para os arredores de Lisboa. Seu pai foi trabalhar como policial. A vida em Azinhaga não prometia muito futuro. Mas a velha Lisboa também tinha seus desafios. Era necessário viver amontoados com outras famílias na mesma casa. Quando retornou aos estudos, formou-se como mecânico e serralheiro e depois foi trabalhar com manutenção de automóveis e depois como desenhista. A não ser por um curioso hábito, jamais poderíamos dizer que seria escritor. Sempre que podia, Saramago frequentava as bibliotecas públicas, o que o transformou em um verdadeiro autodidata.
A dificuldade talvez tenha sido o grande elemento de sua formação enquanto pensador. Se fosse calvinista, à luz da Teoria da Predestinação, poderia ter sido condenado pelas vicissitudes da vida. Mas se analisarmos pelo conjunto de sua obra, fica fácil defini-lo como um predestinado por Deus, a quem sempre questionou. Esta teoria certamente o desagradaria. Ateu declarado, era sobretudo um humanista. Viu e viveu de perto a atuação de sistemas políticos opressores da Segunda Grande Guerra e todos os que vieram depois. A vida não foi fácil para o único Prêmio Nobel da literatura em língua portuguesa. Questionador, autêntico, polêmico e indiferente. Dizia pouco se importar quando seus escritos causavam estranheza aos seus leitores. Seu propósito enquanto escritor parecia ser o de gerar questionamentos. E assim seguiu, questionando crenças e valores, o que o fez se sentir por vezes um incompreendido. Por mais sutil que pudesse parecer, seus trabalhos tinham sempre um fundo de história, de política e de religião.
O ilustre português nunca escondeu seu amor pela literatura, por mais que às vezes tivesse de mantê-lo quase que em silêncio. Mesmo assim, não se dobrava em suas convicções. Questões políticas o fizeram perder o emprego por mais de uma vez. Jamais desistiu e fazia de cada percalço um motivo para buscar novas oportunidades. Esses dissabores causados pela política o levaram a trabalhar como tradutor de obras estrangeiras, o que proporcionou a ampliação de seu conhecimento. Foi tradutor de autores como Tolstói, Hegel, entre outros. Com o passar dos anos, a vida lhe impingia cada vez mais na direção da literatura. Seus ofícios foram responsáveis por deixar o mundo editorial ainda mais acessível. Desde sempre, escreveu poemas e crônicas e também trabalhou como diretor adjunto no Diário de Notícias de Lisboa, cujos incidentes militares de novembro de 1975 lhe tiraram novamente o ofício. Soube muito bem como trabalhar em meio a censura.
Até aqui, tudo o que se viu, foi um homem a lutar contra um ambiente hostil, tão comum no século passado. Passados seus cinquenta anos, na década de 80, o escritor começa sua efervescência literária, com o lançamento de obras consagradas como: Memorial do Convento (1982), O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984), A Jangada de Pedra (1986), História do Cerco de Lisboa (1989), O evangelho segundo Jesus Cristo (1991), Ensaio sobre a cegueira (1995), entre outros romances, contos, diários e crônicas. Já ao final de sua trajetória, produziu duas obras da literatura infanto-juvenil: A maior flor do mundo (2001) e O silêncio da água (2011).
Mas foi a obra “Levantado do Chão”, de 1980, que abriu sua trajetória literária. O tema não podia ser mais pertinente. No livro, o autor parece querer resgatar suas origens a partir das dificuldades da vida no campo. De certa forma, retratava a realidade que ele próprio viveu e fazia isso com simplicidade. Para compor o livro, fez trabalho de campo e acompanhou o dia-a-dia dos camponeses, tendo assim definido sua obra: “O livro chama-se Levantado do Chão porque, no fundo, levantam-se os homens do chão, levantam-se as searas, é no chão que semeamos, é no chão que nascem as árvores e até no chão se pode levantar um livro”.
Talvez nem mesmo Saramago pudesse imaginar que, passados quase vinte anos da publicação de “Levantado do Chão”, outro polêmico livro faria menção à terra: Ao relatar o diálogo de Caim com Deus, o autor novamente retoma sua forma de interpretar a Bíblia na obra intitulada “Caim”, publicada em 2009. “Com o suor do seu rosto você comerá o seu pão, até que volte à terra, visto que dela foi tirado; porque você é pó e ao pó voltará (Gênesis 3:19)”. A ideia de trabalho, de suor, de terra e de pó, sempre estiveram presentes na vida do autor. Mesmo assim, o amargor da planta que leva o seu nome parece ter ficado restrito a certas obras.
Todo o seu esforço em expressar suas ideias de maneira genuína acabou por desafiar a opinião pública. De caráter forte, mas sempre aparentando serenidade, Saramago era sobretudo um homem integral. O resultado de sua obra não poderia ser outro: exílio e premiações. Exílio, pelo dissabor decorrente das críticas que vieram quando escreveu O Evangelho segundo Jesus Cristo. Um pouco cansado e sentindo-se incompreendido, ficou desgostoso com sua pátria e mudou-se para a Ilha Lanzarote, no Arquipélago das Canárias, território espanhol. Há uma passagem, de 1989, em que Saramago expõe sua decepção, quando lhe foi retirada a participação no Prêmio Literário Europeu: “Não sei até que ponto este país [Portugal] precisa de mim, mas sei até que ponto eu preciso dele. Este país agrada-me até naquilo que tem de menos bom. Há uma relação muito mais importante do que isso que se chama patriotismo; é uma relação carnal, de raízes. Tenho-a. Sobretudo, procure saber quem sou, nunca como um ser individual, mas como alguém que está nesta coisa que é um povo e uma história.”
O lado doce e amoroso do autor foi também descrito fora de suas obras. Sua última companheira de vida, ele conheceu em 1986. A jornalista espanhola Pilar del Rio, com quem se casou em 1988 e com quem viveu até seus últimos dias. Pilar conta que, para Saramago, os livros eram como casas em que vivem pessoas. Os leitores? Estes são como as visitas, que vão chegando pouco a pouco. Umas são mais demoradas, outras nem tanto e assim vão ficando em cada livro, porque a sensibilidade não desaparece, impregna-se nas páginas lidas. Não há confronto com outras leituras, apenas uma junção, conta Pilar. Isso faz do livro uma vibração, dando luz à casa. As portas, que tanto fecham os livros, dão passagem, cortesia, hospitalidade e conversa. O leitor é o grande hóspede de uma obra, define a viúva de José Saramago e, mais que uma casa, é maravilhoso quando um autor constrói um conjunto de casas, uma cidade, como sua obra, complementa.
Se em um dado momento Portugal torceu o nariz para Saramago, o resto do mundo não. Prova disso foram os inúmeros prêmios, títulos e homenagens que recebeu em vida. E foram muitos. Incontáveis. Pelo conjunto de sua obra, também recebeu a maior distinção literária de Portugal, o Prêmio Camões, no ano de 1995. Dalí para o Prêmio Nobel de Literatura foram apenas três anos (1998). Saramago é, sem dúvida, um dos maiores expoentes da literatura mundial de língua portuguesa. Ouvi-lo falar é tão gratificante quanto ler suas obras. Impressiona como consegue simplificar a vida, ao mesmo tempo que procura demonstrar toda a complexidade humana.
O ano 2022 é o do seu centenário. Sempre humorado, Saramago conta que foi registrado em 18 de novembro, mas sua verdadeira data de nascimento é dia 16. Por iniciativa de seu pai, que assim o fez para evitar que fosse exigida uma multa por atraso no registro. Teria sido essa a razão de o registrador ter “inovado”, impondo-lhe a alcunha “Saramago”? Tomara que sim. E são justamente os detalhes que fizeram da vida deste autor um manancial de histórias recheadas de significados, fruto de um momento de efervescência política, cultural e histórica na Europa.
E toda essa efervescência parece estar de volta a Portugal. Por onde quer que se ande, em todas as cidades, aldeias e freguesias, há pequenos detalhes a contar a vida deste ilustre português. Basta reparar. Portugal parece querer fazer as pazes com seu “cidadão ilustre”. A sensação que se tem, depois de acompanhar os passos de sua vida, é que durante um tempo, o país não soube acompanhar a velocidade do raciocínio do autor. Talvez isso responda a razão de tantas homenagens em seu centenário. É, sobretudo, um reconhecimento que não é póstumo, mas que parece ser quase unânime. Sua presença por todo lado é prova de sua imortalidade. Com o passar dos anos, percebe-se que os conceitos introduzidos por Saramago foram decantando no ideário português. As máscaras da intolerância, da indiferença e do preconceito foram caindo lentamente. O que outrora fora objeto de extrema polêmica, hoje é visto com a naturalidade que marca as novas gerações do Século XXI. Seus ensaios sobre a política, sobre os direitos humanos, sobre a liberdade nunca foram tão atuais como hoje. Esta é razão pela qual, o seu país, Portugal, o homenageia aos quatro cantos, na semana em que completaria 100 anos.
São exposições nas bibliotecas públicas, nos outdoors, nos programas de rádio e na televisão. Jornais dedicam grandes editoriais assim como os teatros reverenciam a obra deste grande escritor português. A RTP, rede de televisão local, está reproduzindo semanalmente a série Viagem a Portugal, um programa brasileiro gravado com o ator e produtor Fábio Porchat. Baseado em livro homônimo, o programa refaz os passos do escritor, que entre outubro de 1979 e julho de 1980, percorreu o país de ponta a ponta, a convite do Círculo de Leitores de Portugal. Um misto de crônicas, narrativas e recordações que ele definiu como o fim de uma viagem e o começo de outra: “É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite... É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos”.
Em meio aos extremos políticos que o mundo vive neste 2022, marcado por guerra, disputas eleitorais, vieses ideológicos antagônicos, Saramago parece ressurgir com seus discursos incomuns para os anos 90. “Enquanto os governos servirem para os interesses econômicos, jamais teremos justiça social”. Esta frase, em que pese mostrar um viés de esquerda, dependendo de quem a lê, demonstra a preocupação com o equilíbrio que sempre pautou seus posicionamentos. Em uma de suas inúmeras visitas ao Brasil, em 2003 concedeu uma entrevista ao Programa Roda Viva. Na oportunidade, questionado sobre nomes que poderiam resgatar o seu discurso, Saramago simplesmente desdenhou do então recém eleito presidente do Brasil. Prova de que sua ideologia é absolutamente impessoal e que seus propósitos nunca estiveram a serviço de qualquer grupo político. Essa sapiência ímpar, também fez marcar uma série de frases, fazendo com que o autor seja conhecido não só pelos seus livros, mas pelo poder de síntese. Uma delas, em especial, parece traduzir toda a sua trajetória: “o que dá o verdadeiro sentido ao encontro é a busca. É preciso andar muito para se alcançar o que está perto”.
A metáfora, se não empregada em seus livros, esteve também presente em seus discursos. Em 1997, numa conferência proferida na Universidade de Turim, norte da Itália, o próprio autor divide sua obra em duas grandes fases: a fase da Estátua e a Fase da Pedra. Na primeira fase, da Estátua, o autor diz se integrar a toda a produção literária da década de 80, fase esta que termina quando da publicação do Evangelho segundo Jesus Cristo, em 1991. Com este livro, ele considerou ter terminado a estátua. Já a fase da Pedra, iniciou com a publicação de Ensaio sobre a cegueira, em 1995 e terminou com a publicação de seu último romance, Caim. Questionado sobre o que seria a Estátua e o que seria a Pedra, ele define: “A estátua é a superfície da pedra, o resultado de tirar pedra da pedra. Descrever a estátua, o rosto, os gestos, as roupagens, a figura, é descrever o exterior da pedra. Havia, portanto, que passar para o seu interior, ou a pedra propriamente dita”. Na visão de Miguel Real, pseudônimo literário de Luís Martins, escritor português e professor de filosofia, a criação de sua obra, a partir de princípios da década de 90, é a de um escritor que se baseia menos na História e mais na Antropologia filosófica (a fase da pedra). Se no período anterior (da Estátua) ele se propunha criticar e denunciar as perversões do mundo, atribuindo-as à História, na fase da Pedra intenta evidenciá-la na sua profundidade, mostrando-o e enraizando a história no coração do próprio homem.
Sobretudo, todas as bandeiras e ativismos que parecem estar presentes na obra de José Saramago se mostram originais. Nelas há, sem dúvida uma grande lição: a lição da paz. Ao que parece, até mesmo os seus ensaios de ateísmo buscam transformar a ideia do homem, a partir do que ele entende como passagens incoerentes das sagradas escrituras. Isto nos leva a crer que, bem mais do que acreditar em Deus, ou em um deus, os homens precisam buscar a paz, o equilíbrio, a justiça e a igualdade. Afinal, de nada adianta crer em Deus e não buscar a paz. E, para encerrar, digamos, esta homenagem ao escritor José Saramago, na semana em que se encerra a Feira do Livro de Erechim, nada melhor do que provocar o leitor com uma frase do livro “A Caverna” (2000): “É bem verdade, que nem a juventude sabe o que pode, nem a velhice pode o que sabe”.