O que são limites para você? E limitações? Saiba que esses dois termos, com significados bem diferentes, podem se tornar aliados para quem vislumbra nos desafios, oportunidades de crescimento pessoal e profissional.
Um exemplo disso é a jovem Gabriela Rebeschini Ribeiro, de 30 anos, que nasceu com má formação congênita o que causou a ausência do antebraço direito. Ela é natural de Passo Fundo e está em Erechim desde julho do ano passado. A mudança de município aconteceu após a aprovação em um concurso público. Atualmente ela trabalha como agente administrativa, na Procuradoria do Estado.
Recentemente ela visitou a redação do Bom Dia, oportunidade em que conversamos e tivemos a chance de conhecer um pouco mais da história da jovem.
Segundo Gabriela, algumas dificuldades surgiram logo que ela começou a se movimentar. "Não nasci canhota e sempre tentava me apoiar no braço que eu não tinha. Aos poucos tive que "virar canhota". Com oito meses comecei a me comparar com outras pessoas. Via que elas tinham duas mãos. Mas os meus pais nunca deixaram que eu me sentisse diferente, tanto que quando nasci, a enfermeira enrolou bem a região e disse: "É só esconder" - pois a minha mãe não sabia, o médico disse que preferiu não contar durante a gestação, só disse que havia um "probleminha" que ela ia ver quando nascesse. Naquele momento minha mãe disse: "Não, se ela nasceu assim, vai ser assim e vai se aceitar", relatou, citando que a mãe nunca deixou que ela se escondesse. "Ela dizia que, quem gostasse de mim, seria como eu era, que eu deveria me aceitar, e sempre fui de me questionar muito", comentou.
Quando a mãe engravidou da sua irmã, Gabriela pensava: 'ela também deveria ter somente uma mão', recorda.
Desde a infância, Gabriela escrevia cartas ao Papai Noel pedindo a outra mão. Uma vez escreveu em uma folha de árvore. Com 12 anos fez uma avaliação e aos 13 colocou a primeira prótese.
Outro viés das (pelas) diferenças
A jovem reforça que, até então, o próprio problema era o maior que tinha. "No primeiro dia de aula, lembro que eu estava bem nervosa. A minha mãe pegou um chapeuzinho de boneca, colocou um elástico e fez uma espécie de saia na região do braço, desenhou uma carinha e eu fui para a aula. Ela me disse que era para apresentar aos meus colegas o 'Toco'. Assim acabei me enturmando, sempre me senti em casa", destaca.
A postura que faz a diferença
Gabriela enfatiza que a educação é fundamental, e que hoje em dia muitos pais contatam com ela para pedir ajuda. "Isso envolve pessoas de todo o País, pois coloco a prótese em uma empresa de São Paulo. Não me importo com essa situação e não me considero uma deficiente. Os limites somos nós mesmos que nos colocamos e tudo é questão de onde queremos chegar".
A jovem diz que conhece muitas pessoas que enfrentam situações parecidas com a dela ou até mais delicadas. "Algumas se "vitimizam" e outras não querem ser chamadas de deficientes. Sempre digo que há os deficientes e os eficientes. Não podemos julgar as outras pessoas, contudo, é tudo questão da mente. Hoje eu não escolheria ser diferente", salienta.
Desafios para ingressar no mercado de trabalho
"Sempre me cobro e isso é bom. Quando pensei em ingressar no mercado de trabalho, não quiseram me contratar em uma loja pois acharam que eu não ia conseguir dobrar as roupas", relembra Gabriela, que salienta a ideia que teve, a partir daquele momento, de não falar mais sobre o meu braço. "Um dia fui contratada em uma xizaria e após 15 dias o proprietário descobriu que eu tinha uma prótese e nunca tive problemas. Ele viu que eu conseguia desenvolver plenamente as atividades no caixa do estabelecimento. Ainda fiz amizade com os donos", relata.
No entanto, naquele mesmo período ela teve que enfrentar um momento muito difícil com a partida de seu pai. Um tempo depois ingressou no ensino superior e área escolhida foi Administração. Após a graduação, atuou em outras empresas e também em uma cooperativa de crédito.
"Um dia decidi começar a estudar para os concursos e passei em uma vaga para a Procuradoria Geral do Estado mas não atingi uma colocação muito boa. Após quatro anos, me chamaram para trabalhar. Nesse momento também tinha obtido aprovação em outro concurso da Defensoria Pública. Acabei optando pela primeira", destaca.
A experiência profissional fez com que a jovem "mudasse de cidade", pelo menos durante a semana em que fica na 'Capital da Amizade'. Foi a primeira vez que ela "saiu de casa" e precisa administrar ainda, a saudade da família e dos cachorros. "Sempre brinco que todo lugar que vou, "arrumo um braço direito". É o que todo deficiente espera, trabalhar, atuar como qualquer outra, agregar de alguma maneira", enfatiza.
Além de trabalhar, ela observa os cuidados com a saúde, tais como fisioterapia e corrida, que são contínuos. "Aprendi e sempre digo para as outras pessoas sobre a importância de olhar sempre o lado bom das coisas", ressalta Gabriela, que também atua como voluntária em projetos de Erechim e região.