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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

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Aniversário

Por Marcos Vinicius Simon Leite

Enfim. Um ano se passou desde que chegamos a Portugal. É uma sensação estranha. Olho a minha janela, a do quarto onde durmo. As molduras em madeira. Ainda me são estranhas. É como se dentro de mim tivesse algum dispositivo que me impedisse de reconhecer certas coisas. Como se delas não pudesse me apropriar. Ao mesmo tempo, vou percebendo na linguagem, nas coisas que consumo, na água do banho, que isso tudo lentamente me transforma.

O gerúndio me causa estranheza. Então, procuro evitá-lo sempre que estou “a falar” com alguém. Mas nem tudo é tão estranho. Há muitos brasileiros “cá”. Nos sentimos em casa. De manhã, tomo meu chimarrão, mas ele precisa durar dois dias. Quando termino de “beber”, guardo a cuia na geladeira. No dia seguinte, retiro a erva molhada e aproveito o barranco. Não é a mesma coisa, mas depois que se vai para longe, nada mais é a mesma coisa. É caro viver aqui. Economizar é questão de sobrevivência.

Custei a me acostumar com a alimentação, metabolicamente falando. Aprendi que a salada comprada no mercado já vem pronta, limpa e é bem mais barata do que ter uma horta. O tal de bacalhau e o azeite de oliva são caros. Não entendo. Apenas aceito. Difícil é aceitar a fumaça do cigarro. Eles fumam bizarramente. Mas é preciso conviver. As minorias não fumam. Fico calado, como fazia quando era criança. Olho para o lado e vejo eles: malditos pães! Das prateleiras às vísceras. Engordei. Foi um erro. Sucumbi aos pães mas a saúde vai bem.

Tenho saudade é das minhas cervejas. Nem é bom lembrar. Nunca mais tomei uma cerveja que pudesse chamar de minha. Passei a “beber” vinho. São ótimos. Os verdes, um espetáculo. Pão e vinho. Produtos bem portugueses que vão me transformando, me engordando e me empurrando para a prateleira dos queijos. De cabra, ovelha e, vez que outra, de vaca. Não temos um provolone como aquele da Lakto Pan. Não há. Tem sim, racletes. Herança suíça, de quando a turma fugiu de Portugal em busca de liberdade.

O socialismo daqui tem duas caras. Uma boa e uma nem tanto. A boa é que o governo não vê etnia, não discrimina. Portugal é uma verdadeira mãe. Ajuda as pessoas como pode. Educação, saúde e segurança funcionam muito bem. Tem qualidade e não custam nada. Basta pagar os impostos, que são altos. Tão elevados, que o empreendedorismo é uma moda que não pega. É caro investir em Portugal e a economia anda sempre morna. Esse é o lado ruim do socialismo daqui. Ele acostuma as pessoas com o “bem viver” do pão, do vinho barato e do cigarro no cinzeiro, como um dia cantaram os Engenheiros. Parece haver uma certa estagnação, que não se via no Brasil que deixei.

Disso tudo, me vejo obrigado a reconhecer o que não queria. É triste assistir o Brasil de fora, vivendo noutra cultura. É triste ver esse estelionato eleitoral, a morte das instituições, as tais narrativas. É triste ver o que andam a fazer com a pátria amada. Dá medo de voltar. Dá medo prever o que vem pela frente. O Brasil é “gigante pela própria natureza”. Não vive em guerra. Mas o povo sim. Sempre com medo. Desarmado. Sempre desconfiado. Sabe que a qualquer momento vai ouvir alguém dizer, até mesmo quem jamais deveria dizer: Perdeu, Mané! Um país maravilhoso, sem rumo. Vive drogado. Uma droga de má qualidade, como disse Alexandre. A droga da política. Um câncer que não mata, mas que faz sofrer até quem mora longe dele.

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