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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

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Raspas de limão

Por Marcos Vinicius Simon Leite

A monarquia sempre exerceu um certo fascínio nas pessoas. A história do Brasil, felizmente, é riquíssima neste sentido. Ainda que o nosso país não seja decorado com castelos, como é facilmente visto na Europa, restou muita coisa boa daquele período imperial. E com o fim da realeza, os títulos de nobreza também deixaram de existir. E hoje vou contar a história de uma baronesa. Talvez a última. Fajuta na origem mas exuberante na classe.

A Baronesa

A baronesa que conheci nunca foi nobre de sangue. Tampouco filha de família importante. Muito menos ganhou qualquer distinção real. Mas foi uma mulher importante. E como! Foi capaz de dissolver um casamento e fazer um homem viver a aventura de um grande amor. A Marlene foi assim. Uma bela mulher, de certeza, mas sem grandes atributos visuais. O suficiente. Sua luz vinha de dentro. Ao menos para conquistar e ser cortejada pelo Jorge Alberto. Esse, todos conheceram, mas pelo sobrenome: Mendes Ribeiro (pai). Conheci a baronesa já com seus cabelos cacheados brancos, quando a doença de Alzheimer começou a lhe beirar os pensamentos. De uma educação e finesse ímpar, viúva, a solitária mulher acabou por ter o final de sua vida inundado pelo passado intenso que viveu ao lado do seu grande amor.

As tardes com Marlene

Na época, assessorávamos Dona Marlene. Era preciso preparar sua vida em razão do avanço da doença degenerativa. Tarefa delicada. Para atendê-la, era preciso reservar a tarde toda. Requeria muito tato lidar com os momentos de esquecimento do presente, num vai e vem da memória. Era quando Marlene voltava ao passado e nos contava sobre sua história de amor. Falava da vida em Brasília, dos causos do Congresso, da Constituinte de 1988 e das viagens. Mostrava fotografias e recortes de jornal. Certa feita foi ver os botos cor-de-rosa na Amazônia. Uma linda foto, no entardecer do Rio Madeira foi parar numa das paredes do escritório. Contava as lembranças como uma adolescente.

O melhor café

Assim era a baronesa. Triste, por vezes solitária, mas tinha no passado um refúgio, que sempre a levava ao reencontro de seu grande amor. E quando as histórias com Jorginho lhe vinham à cabeça, o sorriso imperial tomava conta de sua face. Era como um sinal. Mudava o semblante. Queres café? Perguntava sorridente. Pedia à sua acompanhante, que era tratada como uma governanta. Não esqueças as raspas de limão! São ótimas, dizia. Difícil era explicar que já havíamos tomado café, há poucos instantes. Nem sempre ela disfarçava e por vezes admitia, baixinho: é que eu esqueço. Mas são boas essas raspas de limão, não são? Disfarçava, elegantemente.

O escritório

A baronesa vivia em um grande apartamento, de dois andares. No de cima, um grande salão verde, onde cultivava algumas dezenas de plantas. Era tudo muito caprichado. Mas o lugar que ela nos recebia, depois do café com raspas de limão, servido em delicadas porcelanas, era no gabinete do Mendes Ribeiro. Aquele que narrou a copa do mundo de 1958, no tempo em que o rádio era a internet da época. E no escritório do já falecido jornalista, advogado, professor e político gaúcho, a baronesa nos mostrava com orgulho as colunas escritas por seu grande amor. Às vezes, uma que outra lágrima escorria de seus olhos. Descia, vagarosamente pelo entorno do nariz, até ficar retida no canto da boca, que sempre esbanjava largos e apaixonados sorrisos.

Paradigma

Escrever para um jornal é uma tarefa prazerosa. Confesso. Como o rádio na copa de 58, o jornal impresso ainda guarda um certo glamour, uma certa realeza. Talvez por isso eu tenha lembrado da baronesa. Nessas colunas procuramos reunir palavras que possam fazer algum sentido, levar algo de bom, mas não sabemos a quem. Poder entrar na vida das pessoas é tarefa de enorme responsabilidade. Embora eu seja bem diferente do amor da baronesa, sei que há alguém que guarda com carinho as minhas colunas. No final, é o que nos resta. Queres um café?

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