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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

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O poder da água

Por Marcos Vinicius Simon Leite

O poder é sempre perigoso. Ele pode ser utilizado para o bem, ou não. Também, nos quatro elementos da natureza (terra, água, ar e fogo), sentimos a presença divina, o inquestionável poder. Infelizmente confundimos o que é “divino” com o que é bom. Por termos uma “temeridade” a Deus, talvez optemos em achar que o que é divino, é bom. Mas isso tudo é fruto de um olhar imediatista, utilitarista e limitado de nossa compreensão humana. Mas hoje não vou falar do que é divino, vou falar da água, sem a qual, não há… chimarrão.

Abobado da enchente

Porto Alegre, assim como a região do Vale do Taquari, se viu envolvida com algo que há tempos não se via: as enchentes. Lembro bem daquela de 1983, quando ainda morava na Serraria, próximo às margens do Guaíba. Fui testemunha ocular do poder das águas, que lentamente avançavam sobre a terra. Até uma redação escrevi para as aulas da quarta série e a tenho sob meus guardados há 40 anos. Mas o termo “abobado da enchente” tem uma relação histórica com a famosa cheia de 1941. O centro da cidade era muito sujo e haviam muitos ratos. Tempos de saneamento zero, e as pessoas que andavam com água pelos joelhos acabavam contraindo leptospirose. As mais sortudas, ficavam atônitas, vendo a subida das águas sem saber o que fazer, talvez a razão desta expressão.

Outras formas

Quando meu terceiro filho nasceu, também me senti como um “abobado da enchente”. Sua condição de saúde deixou todos, incluindo os médicos, com um certo ar de abobado. Olhávamos aquele bebezinho que não chorava, não mamava e não demonstrava sentir fome. Os instintos básicos eram inexistentes. Os mais atentos, que eram raros, percebiam a luminosidade de sua alma, mas os abobados, como eu, não tinham tempo para isso. Mas na vida é assim. Sempre que surgem situações com as quais não estamos preparados, ficamos desse jeito, abobalhado. Nosso olhar se embriaga na atmosfera do desconhecido. Até que vão surgindo pessoas ao redor e nos resgatam. Uma delas, faço questão de recordar: o amigo Romeu Bernardi.

Chimarrão

Em meio aquele misto de alegria pelo nascimento de um filho e o desespero silencioso guardado pela diferente novidade, a sensibilidade do Romeu falou mais alto. Foi o primeiro a “quebrar o gelo”. Talvez tenha percebido que aquela situação era diferente e inspirasse atenção. Dos amigos do peito que foram nos visitar, foi o que providenciou ao nosso quarto, no Hospital de Caridade, uma cuia, bomba, erva e garrafa térmica. Um “kit completo”. Faltava apenas esquentar a água e preparar o mate, que seria o nosso companheiro por bem mais tempo do que estávamos esperando. A água era o elemento “divino” que faltava naquela cena. Romeu talvez não tenha refletido a este nível, mas sua atitude foi iluminada e assertiva.

O poder da água

Com a gentileza do Romeu, o chimarrão passou a fazer parte da rotina no hospital. Essa bebida mística, tem a capacidade de dar ao tempo a importância que ele realmente merece. O chimarrão é quase sempre um remédio para ansiedade. Não por suas centenas de propriedades medicinais, mas pelo exercício e ritual que o cercam. O mate traz consigo essa função ancestral de egrégora. Com ele respiramos (ar), aquecemos o peito (fogo) e colocamos os pés no chão (terra). E a água? Sorvemos. É o que une tudo isso. É o que transporta para nossas células muito mais do que imaginamos. E tomar um mate, mesmo em meio a um momento de apreensão, é como ser abençoado por dentro, ainda mais, quando o gesto vem de um amigo.

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