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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

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Notas do envelhecimento

Por Marcos Vinicius Simon Leite

Cinquenta e três. Um número que até as tremas já perdeu. Também já estampou a lataria de um famoso e simpático fusquinha branco, que muito encantou as crianças nos anos 80. Herbie! Ao que me lembre, foi o primeiro filme que assisti no antigo Cinema Vitória, em Porto Alegre. E claro, fui na companhia do meu único irmão de sangue, Silvio Leite, que hoje completa essa idade.

Quatro primaveras

Na posição de caçula, sempre tive em meu irmão uma espécie de paradigma. Era como se eu seguisse os seus passos. Ele estava sempre quatro primaveras à frente. As experiências por que passava, me serviam de espelho. Marcavam minha memória como um manual de envelhecimento. Esquecia eu, criança, que éramos pessoas diferentes, que tínhamos temperamentos muito distintos. Meu irmão era prudente, sempre tinha um dinheirinho guardado e era bom aluno. Já eu, por querer ser diferente, por almejar sair de sua sombra, às vezes via suas virtudes como algo insosso. Mas isso já é coisa do passado. Não volta mais, senão na memória. Valeu a pena ser como sou. Fui feliz assim.

A meia idade

As antigas tremas ainda não me atingiram a idade, mas estou bem próximo. Distante, é o tempo em que meu irmão deixou de ser paradigma. Envelhecemos juntos, ainda que distantes um do outro. Estamos na chamada meia idade. É terrível e inócua. Não se é nem velho nem jovem. Por mais juvenil que possam ser meus pensamentos, são só coisas da mente. E a mente…mente. Sigo caminhando, atrás, talvez ao lado, ou mesmo um pouco à frente de meu irmão. Mas a direção é uma só. Você sabe qual é. Não é preciso repetir. Ela surge no horizonte como um fim de tarde. Há momentos em que aprecio romanticamente o por-do-sol. Em outros, são as nuvens que roubam meus pensamentos e, não raro, é o escuro da noite que domina minha tranquilidade. Será que isso é envelhecer?

Disfarces

Há muitas formas de se tornar velho. Inúmeras. Mesmo assim, é o corpo quem vai, pouco a pouco, denunciando nossa vitalidade. Podemos disfarçar com a sabedoria acumulada, ou mesmo com belas palavras aplicadas em momentos oportunos. O senso de oportunidade é algo que se aprende com o passar dos anos. Aprendemos a ser meio águias. Mesmo assim, não passa de um autoengano. Ameniza, certamente, mas não impede a força da natureza. A velhice é algo que não se pode lutar contra, só à favor. Cuidar da saúde e guardar dinheiro são bons exemplos, mas nem sempre suficientes e não sabemos em que medida.

Agora e na hora de nossa…

Morte. Este é o nome de um livro que estou lendo. Retrata, jornalisticamente, o fim de vida dos velhotes que vivem em aldeias isoladas de Trás os Montes, nos confins de Portugal. Algumas passagens, necessariamente, são reveladoras e, por vezes, assustadoras. “Nada que tem importância dura”. Uma “dura” constatação. “O corpo das mulheres, por exemplo, que tantos frutos deram, por vezes acabam completamente vazios”. E nossas pernas? “Quando deixam de andar, nos fazem caminhar apenas pelas memórias”. Isso tudo, quando não a perdemos. E por aí vai. Verdadeiramente.

Meu irmão

Mas enquanto ando por aí, lépido e faceiro, enquanto meu irmão percorre algumas centenas de quilômetros com sua bicicleta, não convém sofrer por antecipação. A velhice chega para todos os que tem a sorte de envelhecer. Terminar a jornada na cama, por falta de alternativa, não inspira ninguém, eu sei. Então, por hora, vou desejando ao meu irmão e, principalmente aos meus pais – saúde, saúde, saúde. O antídoto contra toda e qualquer ameaça. E assim vou seguindo meu caminho, desgarrado nos passos, mas alinhado no pensamento, como fazia quando era criança. Sempre à espreita do mais…velho e com uma dúvida: será que ele pensa como eu? Feliz aniversário meu irmão! Saúde! Saúde!

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