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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

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Saúde portuguesa

Por Marcos Vinicius Simon Leite

Na semana que passou fui lá. Tive minha primeira experiência com o sistema de saúde. Português. Precisava consultar sobre minhas conquistas da idade. Hipertensão e tireoidectomia. Além de um cisto na cabeça. Foi também a primeira vez em que fui atendido por um médico negro. Lembrei que os negros também podem ser médicos. Isso é racismo, sabia? Racismo estrutural. E o médico tinha um nome lindo: Emmanuel Vicente.

O atendimento

Correu bem, como dizem os portugueses. Fui atendido com rapidez pelo SUS daqui. É tão bom quanto o brasileiro. Os portugueses reclamam. Vivem reclamando, mas funciona bem. Mas há uma diferença já na chegada. Para ser atendido, é preciso pagar um valor de dezesseis euros. Convertendo, dá mais ou menos cem reais. Chama-se coparticipação. Com isso, se ajuda o sistema e se elimina os paranoicos e hipocondríacos. Vai à fila quem realmente precisa. Não vemos aqueles pacientes de carteirinha que vão toda a semana “consultar”.

Lembranças

Essa experiência me fez lembrar de minha primeira experiência de saúde: meu nascimento. Minha mãe contou-me que naquele outono de 74, depois de torturá-la, pois dela parecia não querer sair, acabei nascendo no Hospital Beneficência Portuguesa. Parto à fórceps. Eram tempos bem mais difíceis, em todos os aspectos. A medicina não dispunha dos recursos de hoje. E na política, curiosamente, haviam se passado apenas duas semanas do fim da ditadura de Salazar em Portugal. A do Brasil demoraria dez anos mais.

O Hospital

A história do Beneficência Portuguesa iniciou com a independência do Brasil. Como Porto Alegre foi fundada por imigrantes açorianos, para lá migraram muitos portugueses. Basta ver a arquitetura. Eram eles, portanto, os principais fomentadores do sistema de saúde. Com o desgarro de Portugal, as “santas casas” ficaram impedidas de investir no Brasil. A maioridade do país teve esses contratempos. No entanto, haviam muitos portugueses que precisavam de amparo. Foi então que a sociedade portuguesa que vivia na capital se organizou, criando em meados de 1845, uma sociedade filantrópica, que anos mais tarde daria origem ao hospital.

A xenofobia ontem

A xenofobia (aversão aos estrangeiros) não é coisa atual. Já naquele tempo existia. Diz a História que depois de encerrada a Revolução Farroupilha, em que brasileiros e portugueses estiveram em lados opostos, o hospital finalmente avançou. No discurso de inauguração, o vice-cônsul de Portugal proferiu: “devido à pouca atenção das autoridades brasileiras para com a comunidade lusa, nada melhor que os próprios lusos assumirem a responsabilidade pelo seu atendimento médico e social”.

A xenofobia hoje

Aqui, no interior de Portugal, percebemos a xenofobia. Há muitos imigrantes, de diferentes partes do planeta. Além dos povos africanos, há ucranianos, vindos da guerra, paquistaneses, indianos, sírios e outros que não distinguimos. Gente que possui uma cultura muito diferente da “nossa”, o que faz com que os brasileiros “levem vantagem” perante outras etnias. Somos os mais tolerados em matéria de xenofobia. A rejeição fica na conta dessa gente, que não têm o privilégio de falar a língua de Camões. Por esta razão, reconheço que o tempo dos portugueses em Porto Alegre foi muito mais difícil do que o nosso aqui em Portugal. Seja como for, os brasileiros são muito bem cuidados e acolhidos por aqui, como bons irmãos.

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