Os pombos
Os pombos já foram símbolo de muita coisa. Animal dócil. O branco representava a paz, quando esta ainda existia. Por muitos anos, serviu de correio. Foi um desses exemplares que trouxe a Noé um ramo de oliveira, levando-o a descobrir que as águas do dilúvio haviam começado a baixar. Os exércitos da Primeira Guerra Mundial também copiaram Noé. Mas com o tempo, as pombas foram perdendo esse protagonismo.
O sistema
As pombas – ou pombos – foram grandes aliados do ser humano. De fácil domesticação, orientam-se por magnetismo. Seu minúsculo cérebro é capaz de processar informações que os seres humanos levariam anos em aprender. Robustos, conseguem viajar até mil quilômetros em um só dia a quase cem por hora. São extraordinários, convenhamos. Mas engana-se quem pensa que o pombo correio sabe onde levar as cartinhas. Não. Ele sabe é onde fica sua casa. Então, basta levá-lo até um destino e ele retorna (levando a carta). Mas isso tudo, só no tempo em que não haviam os Correios e mais, no tempo em que se escreviam cartas.
Das Histórias
Das histórias sobre os pombos, a que mais gosto é a de Noé. De acordo com a Bíblia, o pobre salvador estava desacorçoado com todo aquele aguaceiro do dilúvio. Possivelmente, quase não suportava mais o cheiro de estrume nos porões daquela arca. Imagino ainda, quantas vezes não teve de conter os ânimos dos animais mais ferozes, que se encontravam loucos para estar de volta ao seu habitat. Algo como quando viajamos para casa de algum parente e só chove. Ficamos presos, nervosos, à espera da estiagem para que possamos…fugir de lá. E Noé tentou primeiro com um corvo. Não deu certo. Esperou alguns dias e tentou com o pombo. Também não funcionou e o pombo também retornou à arca. Mas como era otimista, optou novamente pelo pombo, que na terceira partida retornou com um ramo de oliveira. Era o sinal que faltava. As águas haviam baixado.
Os pombos de hoje
Hoje, os pobres pombos são vistos pelas grandes cidades. Fazem sujeira. Cagam. São piolhentos e carregam doenças, dizem uns. Comem o que cai pelo chão. Vivem relegados de seu contexto histórico. Andam por aí como os desempregados. Não servem mais para os correios e quase não há circo para que trabalhem com os mágicos. Os brancos, morrem de velhos, à espera da paz ou a visita de alguma celebridade que lembre a harmonia entre os homens. Pior de tudo, tornaram-se presa fácil dos famintos. Servem como proteína para aquelas pessoas que a sociedade ignora, e que acabam por receber o mesmo desprezo que é dado a esta simbólica ave.
O que nos resta
Não se engane. Nessa modernidade líquida em que vivemos, tudo se torna obsoleto e cada vez mais rápido. A qualquer tempo, podemos estar a fazer companhia aos pombos, andando pelas praças à espera de migalhas. A todo momento surgem novidades. Tecnologias que tornam invenções obsoletas. Mas se você não entendeu onde queria chegar, pense para daqui uns trinta anos. Que milagres serão feitos para sustentar os aposentados? Se hoje você tem trinta anos, terás sessenta. O mundo está a envelhecer e faltarão pessoas para cuidar de pessoas. Se esse pensamento não mudar, seremos todos pombos. Cheios de histórias, de utilidades, mas obsoletos e reféns da própria espécie que se diz em evolução. Ficaremos ilhados, à espera do tal ramo de oliveira. Daí lembraremos deles, ou da Bíblia.