Doce ou salgada?
Ao longo da vida, pessoas vão cruzando em nossos caminhos. Gente que durante um tempo tem presença garantida em nosso dia-a-dia. Parecem fazer parte de nós, mas por uma razão ou outra, desaparecem. Seres especiais, que certamente gostaríamos de rever, de estar próximo. Algo que a simples busca na internet não seria capaz de satisfazer.
O Valdir do Serraria
Quando criança, morava em Porto Alegre, próximo ao final da linha do ônibus Serraria. Bairro de gente trabalhadora. A proximidade com o fim da rota proporcionava que conhecêssemos melhor os motoristas. Um deles, em especial, marcou minha infância. Primeiro, por ser aquele que me trazia da escola. Segundo, por ter prestado socorro à minha tia, quando sofreu um grave acidente de trânsito, já próximo de casa. O nome dele era Valdir. Possivelmente José Valdir. Os que conheci eram todos também José, como o meu padrinho.
O motorista
Aquele motorista era um ser especial. Marcou demais a minha história. Tinha um jeito sereno em pilotar aquele ônibus apinhado de gente. Fazia a linha em horário de pico. Trânsito caótico. Mas o Valdir pouco se importava. O veículo dele tinha motor traseiro. Um luxo, sem aquele barulhão todo. Então, ao lado do painel, recostado ao vidro dianteiro, eu viajava sentadinho, num pequeno vão, admirando o trabalho daquele homem. Seria impensável nos dias de hoje. Perigoso, claro que sim. Vivemos na era do medo. Eu poderia distraí-lo e, em caso de acidente, minhas frágeis costas seriam o primeiro objeto de contato. Seria ele um pedófilo? Algum passageiro atual haveria de denunciar a improvável e profunda amizade de um homem comum e um menino de pouco mais de seis anos.
No ônibus
Nem sempre dava para conciliar o horário de saída da escola com o do motorista. Então eu chegava a ficar até mais de uma hora à espera “do meu ônibus”. Já era escuro quando o Valdir apontava o “carro nº133”. Parávamos no centro da cidade e depois rumávamos para o outro final da linha. Nesta parada da Salgado Filho, em frente ao antigo cinema São João, havia um pipoqueiro na esquina com a Vigário. Enquanto os passageiros desciam e subiam no coletivo, Valdir comprava pipocas. Doce ou salgada? Sempre me perguntava. Comíamos, e enquanto esperávamos a partida, conversávamos. Em seguida, ouvia-se os pistões de ar a fechar as portas. Era o aviso de que partiríamos numa viagem de 45 minutos até a zona dos quartéis da Serraria, onde eu morava.
No trajeto
Aquele trajeto era como uma partida de futebol. Confesso não lembrar bem dos assuntos que conversávamos, mas muitos deles versavam sobre como dirigir. Eu observava cada detalhe, como as duas debreadas para facilitar o engate das marchas. A primeira era para trás. Diferente dos carros. Fitava como ele cuidava os espelhos e a forma sutil como freava. O pesado ônibus deslizava suave pelas avenidas de Porto Alegre. Os passageiros, já acostumados à minha presença, nem estranhavam. E o Valdir contava-me histórias, piadas e coisas da vida. Tínhamos uma amizade verdadeira. O ônibus era o nosso palco, o nosso mundo. Um campo magnético. Nunca o vi zangado com nada. Era um trabalhador que amava o que fazia. Eu queria ser como ele.
O socorro
Numa ocasião, minha tia que ainda morava conosco, sofreu um grave acidente, nas proximidades da casa do Valdir. Eu tinha sete anos. No dia seguinte, dia de Santo Antônio, soube que foi ele quem a salvou e levou ao pronto socorro, desacordada. Por sorte, a Tia Neli sobreviveu e minha admiração pelo Valdir atingiu outro nível. Tronou-se um herói para o “eu menino”. Teria muito mais por dizer dessa amizade, mas faltaria espaço. Onde estará o Valdir? Onde estarão essas pessoas que marcaram nossas vidas? Mesmo perdidas, há um lugar onde sempre estarão: no quentinho do nosso coração, entre o vidro dianteiro e o painel, quem sabe, comendo uma pipoca. Doce ou salgada?