Verão!
Chegou o verão. Não aí, onde me lês. Aí chegou o inverno. Enquanto no hemisfério sul teremos a noite mais longa do ano, no hemisfério norte teremos o interminável dia com 15 horas de sol. Coisas do solstício. Cinco da manhã parecem oito. Quatro da tarde parece meio-dia. E toda essa diferença me faz lembrar dos tempos de guri.
Dias longos
O verão tem lá seus atrativos. Claro que sim. De certo que eu prefiro o inverno, mas para quem é criança – ou foi – os longos dias de sol deixam boas lembranças. Tempos em que éramos como que sócios do sol. Havia uma parceria não declarada. Só pode. No verão, o sol parece estar em férias e demora a querer ir para casa. Fica ali, a iluminar as vivências da infância. Quando piá, costumávamos brincar até que o último raio de sol permitisse. Jogávamos bola em campos de areia até que não se pudéssemos mais diferenciar o que era bola e o que era a canela dos amigos. Ninguém arredava o pé.
Vem pra dentro!
Assim que começava a anoitecer, lá pelas oito, lembro de começar a ouvir vozes. Eram como o coaxar dos sapos. Isso se você morasse na várzea ou perto de uma sanga. Vozes que chamavam por nomes. Alexandre, vem para dentro! Adriano, anda guri! Fulano, tá na hora! Beltrano, agora deu! Por todo lado ouviam-se mães a chamar por seus filhos. Amanhã tem mais! Bradavam as mais boazinhas. Mas não adiantava, havia sempre aquele recurso: só mais um pouquinho! Eram normalmente atendidos, até que não fosse mais possível estar na rua. A vida era assim. Brincávamos. Brincávamos, até que o cansaço nos separasse da secreta parceria com o sol.
Vai pra fora!
Hoje as coisas andam um pouco diferentes. O “vem pra dentro” se tornou “desliga isso daí”. É claro, quando os pais também estão desconectados de suas redes sociais, o que é raro. Hoje, as crianças que brincam na rua, infelizmente, parecem ser aquelas que os pais pouco se importam. Também, tudo ficou mais perigoso depois que o mundo “melhorou”. Depois que as liberdades foram finalmente libertadas, o que é bom, veio o sequestro, a pedofilia e uma infinidade de drogas que não sabemos nem os nomes. Um paradoxo. E a noite escura surge sempre com estas máscaras. Pensando bem, já não se pode mais brincar na rua e o celular se tornou o pátio de casa, mas do tamanho do mundo. Nele a criança fica entretida. Ao mesmo tempo em que está presa, em aparente segurança, está aberta a todo e qualquer tipo de violência digital que nas ruas seria impossível reproduzir.
É sempre inverno
Para muitas das crianças de hoje, é sempre inverno. Estão sempre trancafiadas. Infâncias que desaparecerão tão rapidamente como uma história no Instagram. Não sabem o que é piolho, sarna, estafilococos nos joelhos e aquela borda de sujeira nas dobras do pescoço. Cicatrizes, só na alma. Quando ganham um brinquedo mais ousado, como um par de patins ou skate, ganham também joelheiras, capacetes e tudo mais. Tudo para proteger. Do quê? Do mertiolate, do pronto-socorro? Do medo da noite. Do medo de tudo. Medo, medo, medo. É tanto que nem se fala mais em bruxas nem no “véio do saco”, aquele que fazia sabão com as criancinhas. Enquanto anoitece, os pais ficam tranquilos. Mal sabem que hoje os velhos do saco são outros. Com visual moderno, aparecem livremente nas redes sociais.
O frio do sul
Mas porque toda essa conversa? Talvez para lembrar da infância. Do tempo em que brincar na rua nos dava habilidades para enfrentar os invernos da vida adulta. Também, para dizer que quando somos “grandes”, o verão é quente, chato e pegajoso. Tudo isso porque sinto inveja do inverno do sul. Dane-se o calor! Bom mesmo é buscar lenha às cinco e meia. Fazer um fogo, ver a chaleira no canto da chapa, cheia de pinhões a assar. Banho? Para quê? Eu nem me sujei, diriam as crianças. Seja bem-vindo inverno gaúcho! Te espreitarei de longe, saudoso, talvez tomando uma Sagres, enquanto as tardes ensolaradas custarão a passar aqui nas Terras de Cabral.