A “sodade”
Em um lugar do Atlântico, distante cerca de 500 Km da costa africana, próximo ao Senegal, fica o Arquipélago de Cabo Verde. Um conjunto de 10 ilhas, cuja área total corresponde a 10 vezes o tamanho de Erechim. E neste lugar encontra-se um povo, que por falar português, sabe bem o que significa saudade. Porém, para os cabo-verdianos, a saudade é palavra forte e, no dialeto crioulo, se chama “sodade”.
A vida na ilha
Entrevistei recentemente o José Fernandes. Doutorando em educação física, me contou porque “sodade é palavra forte”. Disse ter deixado Cabo Verde aos 22 anos. Até então, nunca havia viajado. O mundo que conhecia costumava terminar em um fim de tarde qualquer, geralmente à beira de uma praia, na companhia dos amigos, à espera do anoitecer. Era um ritual, como se soubessem que é ele, o mar, quem define a vida e os destinos naquela ilha. Para os cabo-verdianos, o mar é como uma poderosa divindade. Define o que vem e o que vai.
Partidas
Para aquele povo, em verdade, a saudade é um fantasma. Faz parte da vida de quem nasce na ilha, que por seu tamanho e geografia, é repleta de limitações. Por vezes, árida. Não há espaço e as oportunidades são poucas. Então, a cultura local já vai talhando seus habitantes, que crescem sabendo que, mais cedo ou mais tarde, a “sodade” fará parte da vida, em definitivo. Gente que vive o constante sentimento de que será o último dia. Ora é o vizinho, ora é o amigo, ora é o irmão. As despedidas fazem parte do cotidiano e todos crescem e convivem com separações e partidas. O mar, grande força da natureza, sabe-se lá, quanto tempo faz, também separou a ilha do restante da África.
A partida de José
José lançou-se ao mar ainda jovem. Foi à Lisboa tentar a sorte e a vida. Na chegada sofreu um enorme impacto. Um choque de realidade. Em três dias chegou à Covilhã, na Serra da Estrela. Foi um segundo impacto. Passou a viver na prática o que durante toda a vida foi treinado e acostumado a ver nos outros o sentimento da saudade. Por isso diz que “sodade” é palavra forte. Ao mesmo tempo que chateia, serve de impulso. Em 20 anos morando na Covilhã, José já retornou à Cabo Verde por diversas vezes. Em duas, seu coração sentiu a vontade de ficar. Porém, deu-se conta de que suas raízes também haviam se espraiado para além da ilha.
A saudade de José
José contou-me que aos poucos a saudade vai consumindo a vida que ficou para trás. Com o tempo, o sentimento de pertencimento vai se deparando com novas realidades. Primeiro, é uma casa da rua de sua infância, que ao regressar a ilha, já não existe mais. Em seu lugar, agora há um prédio. As pessoas também vão deixando este plano e, ao retornar em visita, já não é possível encontrar os mesmos amigos e familiares. Em sua rua, agora andam pessoas que lhe são estranhas. E tudo isso é saudade.
Encarando a saudade
Ao enfrentar a realidade da ilha, José descobre que a saudade está estampada nas feições de uma criança. É quando ouve alguém dizer: “este miúdo é filho do fulano”. José então trava seu olhar nas vistas da criança, como se pudesse acessar o seu próprio passado, revisitar sua infância e, nem que por um instante, afastar esse gosto amargo da saudade.
Aprendizados
A jornada humana é feita de inúmeros episódios. Se repararmos bem, em todos eles, o sentimento de perda está sempre presente. É a “sodade”, palavra forte. Essa amarga sensação, esse eterno nó na garganta, essa certeza de que a vida muda a todo o instante e que o olhar da infância grava imagens que o coração jamais conseguirá revisitar, senão em sonhos. Essa é a saudade, a “sodade” de quem vive numa ilha, e que um dia aprende que o mundo não termina num final de tarde com amigos na beira de uma praia.
mvsimonleite@gmail.com
WhatsApp +351 92799 9140