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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

Marcos Leite

Opções mutuamente excludentes

Por Marcos Vinicius Simon Leite

Eis um termo da ciência. Mas não pretendo falar dela, e sim das coisas da vida. Posso dizer que vivi num tempo em que se tinham poucas opções. Duas, geralmente. Emissoras de TV, bicicletas, faculdades, times de futebol. Fui criado nesse ambiente, de opções mutuamente excludentes. Um pouco melhor do que a geração que me antecedeu. Esta, simplesmente não tinha opções. Era só exclusão. Quando algo surgia, ou pegava, ou largava. Era o chamado “cavalo encilhado”.

Escolhas

Como falei de emissoras, bicicletas, faculdades e times de futebol, agora tenho de discorrer sobre isso. Quando criança, lembro de haver apenas dois canais de televisão: a TV Gaúcha, que pertencia à Rede Globo e o Sbt, do Silvio Santos. Anos mais tarde é que apareceu a TV Manchete, ostentando o Clube da Criança, programa ancorado pela Xuxa, hoje sexagenária. As bicicletas também. Ou era Caloi, com freios à balaca, ou era Monark, com freio à tambor. Quando surgiu o filme do ET, as fábricas ofereciam duas opções às crianças: Caloi Cross ou BMX. Faculdade? Também: PUC ou UFRGS e os times de futebol até hoje são dois: azul ou vermelho.

Antes de mim

Antes de eu nascer era pior. Não se podia escolher entre um e outro. Nem votar era permitido. O que se podia optar, era: vou estudar ou vou trabalhar. Não era uma interrogação. Era uma escolha. Os pais costumavam dizer, que se o filho estudasse, seria sustentado, do contrário iria trabalhar ou levava um pontapé na bunda, independente da conotação do gesto. Tempos difícieis, reconheço. Por vezes agradeci por ter nascido em 74. Se tivesse sido antes, teria morrido, ou de desgosto ou preso. Teria sido um desses chatos contestadores. Mais irritante do que consigo ser hoje.

O que isso reproduz

Viver a infância e a adolescência escolhendo entre Coca Cola ou Pepsi, entre Brahma ou Antártica, fez com que muitos se tornassem pessoas gratas em poder optar entre um e outro. Também, o senso crítico se tornava mais apurado. Afinal não haviam outras opções. Quem escolhesse mal, teria de amargar com o equívoco. O jeito era engolir à seco e esperar arrependido, até que outra oportunidade surgisse novamente. E elas costumavam demorar. Eram tampos em que os homossexuais, por exemplo, não tinham vez. Ou se era homem, ou mulher. Qualquer variação deste tema, tinha de ficar escondido, aguardando no armário, até que surgisse a hora certa, como aquela gabardine com cheiro de naftalina. Para quem vivia no Rio Grande do Sul e fosse abastado, o auge das escolhas era poder escolher a praia. Havia uma meia dúzia a dividir o mais comprido dos litorais: Torres, Arroio do Sal, Capão da Canoa, Tramandaí ou Cidreira. Uma rara exceção em que se tinha mais de duas opções.

As novas gerações

Mas o tempo passou. Ainda bem. O que ficou foram as memórias, as manias, as crenças e alguns costumes. Especialmente nos mais velhos, que hoje têm de conviver com uma juventude acostumada a ter sempre muitas opções e por isso têm medo do tédio. São tantas alternativas que as praias deixaram de ser objetos de desejo. Lembro que quando criança, esperava ansioso até chegarem os dias de veraneio no Hotel Real, na praia do Arroio do Sal. A primeira coisa que fazia quando lá chegava, era pegar meus cruzeiros para comprar um time de futebol de botão. Panelinha. Ainda não sabia da existência dos “puxadores”. Quem jogou sabe.

O que fica

Mas o que fica disso tudo, desse antagonismo esquisito? Existem alguns casos em que infelizmente não temos opção. É um ou outro, “mutamente excludentes”. E esse gosto amargo das escolhas erradas, quando não cai no esquecimento, perdura. Uma sensação que nos faz lembrar do tempo em que era preciso esperar meses até que chegasse novamente o dia do aniversário, a época de ir à praia, a volta às aulas e tantas outras fontes de ansiedade, que em verdade, nos faziam saber esperar pelo melhor. O verdadeiro significado de “esperança”.

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