Annie Ernaux
“Onde estão os olhos da minha infância? Aqueles olhos medrosos que tinha há trinta anos, os olhos que me fizeram”
A frase é de Annie Ernaux e retrata o início da carreira da escritora francesa, laureada com o Nobel de Literatura de 2022. A autora é uma autêntica expoente da geração que hoje está na chamada terceira idade. A geração que viveu as mais diversas transformações do planeta.
Sobre Annie
Annie Ernaux nasceu na Normandia, em 1940. Vinda de uma família tradicional, precisou enfrentar muitos preconceitos da época para vencer na vida e não sucumbir às imposições da época. Se naquele tempo as coisas eram difíceis para os homens, para as mulheres era muito pior. Então, a jovem francesa buscou no estudo a sua libertação dos costumes daquele tempo. Formou-se em literatura moderna e começou a vida como professora, um dos raros ofícios permitidos às mulheres.
A história
Aos 34 anos, Annie Ernaux publicou seu primeiro livro, que em português leva o nome de “Os armários vazios”. Desde a primeira obra, a francesa empregou à escrita a sua marca registrada: o caráter biográfico. Fez de suas experiências de vida, a base de suas obras. No decorrer da carreira, ganhou várias distinções e prêmios, até chegar ao apogeu com o Nobel de Literatura. A academia a reconheceu por sua "coragem e acuidade clínica com que descortina as raízes, os estranhamentos e os constrangimentos coletivos da memória pessoal".
Os livros
Depois do primeiro, publicou “O lugar”, em 1983, livro responsável por ter dado evidência à escritora. Em “Os anos”, entregou uma obra de caráter cronológico, que retrata acontecimentos históricos e políticos. Em outro, de nome “A vergonha”, descreve sua experiência com um episódio de violência doméstica, vivido por sua mãe quando tinha apenas doze anos. Mas de todos os trabalhos, talvez o mais impactante seja “O Acontecimento”. Neste livro Annie Ernaux descreve uma experiência de aborto que teve no início da década de 1960.
O acontecimento
Nesta obra, Annie Ernaux revisita a sua dramática experiência. Não como uma apologia à controversa prática, mas sim, para expor o jugo imposto às mulheres daquele tempo. Na altura, Annie era uma jovem e promissora estudante, cuja gravidez poderia comprometer o seu presente e, sobretudo o futuro. Eram tempos em que as mulheres eram classificadas como puras e impuras. O livro, inspirou também a sétima arte, que em 2021 deu ao público o filme de mesmo nome, baseado neste livro.
Coragem
Entre a valentia e a covardia, extremos desequilibrados das valências humanas, reside a coragem. É com ela que a autora revela detalhes de um tempo em que grandes barbáries aconteciam, mas que a sociedade, caprichosamente, punha tais fatos para debaixo dos tapetes da moral de dos costumes conservadores. E por pensar em sua trajetória, sempre fica aquela questão: quantas mulheres, nascidas naquele tempo, não teriam padecido desses males narrados por Annie Ernaux? Talvez, o sucesso de escritora resida no fato de ela permitir trazer à luz, as sombras de um período marcado por tanto preconceito, moralismo e exploração das mulheres.
O legado
As obras de Annie Ernaux permitem, a seu modo, revisitar o passado, regenerar traumas e desfazer crenças, cujo tempo parece ter superado. Algo que promove o auto perdão. Para o público jovem, além da frase que inicia esta coluna, resta uma oportunidade de conhecer como era difícil a vida daqueles que nos antecederam e que hoje chegam aos oitenta anos, especialmente as mulheres.