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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

Marcos Leite

Impensável

Por Marcos Vinicius Simon Leite

Na coluna de ontem, escrevi sobre a riqueza. Ao final, concluí que a família é o nosso verdadeiro tesouro e como tal, poderia ser medida pelo número de filhos, em uma visão qualitativa, é claro. Até porque tem pais que tem dez filhos (visão quantitativa) e isso não faz a menor diferença. Infelizmente, hoje escreverei sobre a riqueza roubada, inexplicavelmente, das famílias de Blumenau, mas por um outro viés.

Memória

Quando a gente não lembra de alguma coisa, não significa necessariamente que ela não exista. Esse assassínio, inexplicável, é um exemplo. Talvez, o pior dos últimos tempos, até porque é difícil comparar barbáries. Porém, inevitavelmente, quando algo horroroso acontece, nossos pensamentos procuram encontrar na memória, algo que possa ao menos dar uma pista, uma reflexão para tentar entender o inexplicável. Este é um exercício inevitável, mas que só ocorre depois que “o leite foi derramado”.

Manifestações

Aqui já destaco como o trabalho jornalístico pode ser desajeitado. Enquanto no Correio do Povo, a linha editorial oculta propositadamente detalhes, para eventualmente não vangloriar o desajustado pensamento do criminoso, outros fazem justamente o contrário, o que dá ao episódio, contornos de cinema de terror. Também, não faltam oportunistas políticos, começando pelo presidente, que associou o fato ao termo “ódio”. Parece não perder a oportunidade de destilar o próprio. Pior ainda fez a pesquisadora de violência nas escolas, Júlia Siqueira da Rocha, que comparou a situação com os Estados Unidos, onde a sociedade é armamentista e faz uso da força. Atribuiu a pesquisadora que aumento dessas culturas no país, somado ao crescimento de células neonazistas, podem explicar a alta de ataques a escolas.

É cedo

Discordo, tanto do presidente, quanto da pesquisadora. Penso que é muito cedo para sair atribuindo causas e influenciando pessoas, atiçando a ira do nós contra eles. Ela até pode estar certa, mas ainda é cedo. Além disso, a própria polícia já afirmou ser um caso isolado. Em comum com outros crimes, temos o ambiente escolar. De resto, é algo incomparável e impensável. Quando o menino Bernardo e a menina Nardoni foram mortos, muitas hipóteses podiam ser levantadas, mas dessa vez, me parece ser muito cedo, senão a de que há loucos – soltos – por toda parte.

Cinema

Me dei ao trabalho de pesquisar sobre o cinema. Tentar encontrar algum precedente. Quando adolescente, assisti alguns filmes da série Sexta-feira 13. Por mais macabros que fossem, eram escritos por pessoas. E o que percebi, é que nem mesmo o Jason (personagem do filme Sexta-feira 13) seria capaz de um horror desses. Duvido que algum produtor de cinema fosse capaz de criar uma cena dessas. Talvez estejamos diante de uma tragédia familiar sem precedentes na espécie humana, dessas que nem o mais terrível filme de horror seria capaz de criar.

O que fica

Durkheim, certa feita, ao realizar um estudo sobre o suicídio, trouxe à luz o entendimento de que este fenômeno poderia ter causas sociais, além de psicológicas. Evidenciou que o funcionamento da sociedade, voltado para si mesmo e não para os indivíduos que dela fazem parte, permite que o suicídio ocorra, pois ninguém fica sabendo dos passos do suicida. Infelizmente, acredito que este caso guarde relação com o pensamento de Durkheim. Este monstro não se tornou assassino depois de comer um pacote de salgadinhos. Ele andava por aí, despercebido, sem vigília. Este é o ponto de reflexão. De nada adiantará reforçar a segurança das escolas. É preciso reformar a sociedade, para que o foco deixe de ser “a sociedade” e passe a ser “as pessoas”. Só assim poderemos identificar potenciais criminosos e dar a eles, bem mais que o desejo de voltar a discutir sobre a pena de morte, o cuidado necessário para que o restante da sociedade possa viver com tranquilidade.

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