Riqueza
Estamos novamente às voltas com o imposto de renda. Para alguns, a oportunidade de ter de volta, boa parte do que, ao longo do ano, foi retido sem dó. Para outros, hora de dar transparência para o que foi mantido no escuro. De toda forma, uma obrigação tributária importante. Também, um momento em que refletimos sobre a utilização do dinheiro público e sobre os conceitos de riqueza. Há sempre quem se revolte, com ou sem razão. Por isso que existe a retenção, porque se dependesse da caridade – ainda que obrigatória – o governo, que nem sempre faz sua parte, não veria um vintém.
Branqueamento de capitais
Este é o termo usado em Portugal para “lavagem de dinheiro”. Mas o que vem a ser “lavar dinheiro”? Muita gente ouve falar mas tem vergonha de perguntar. Então, porque não contar isso numa coluna de jornal? Vamos lá. Imagine que você roubou um banco ou recebeu suborno em um negócio público. Pronto, estás com o dinheiro guardado numa super cueca, onde cabem, sei lá, cinquenta milhões de reais (caso hipotético). Bom, como ninguém rouba dinheiro para deixar guardado por aí, chega uma hora em que é preciso gastá-lo. É neste momento que o problema aparece. Se você vai comprar um carro, por exemplo, é arriscado chegar à loja portando cem mil reais em espécie. O criminoso praticamente se denuncia. Se depositar no banco, os organismos de controle ficam sabendo. Não é fácil a vida do ladrão.
Na prática
Por óbvio, não pretendo aqui, dizer como se deve praticar um crime. Por isso, pulo essa parte. O leitor entenderá. Porém, quando o dinheiro sujo retorna ao sistema financeiro, ele necessariamente deixa rastros. É esta “forma” dada para que o dinheiro retorne é que pode constituir a lavagem de dinheiro. Depositar na conta um milhão de reais, emitir uma nota fiscal fictícia e pagar o tributo. Pronto, o recurso paga imposto e volta ao sistema, mas o crime não cessa. E uma das formas de se “apurar” esses desvios, são os chamados “sinais aparentes de riqueza”. O sujeito que mora bem, vive bem, viaja e nas redes sociais demonstra uma vida de rico, mas no imposto de renda, nada consta. Algo não fecha.
O que era riqueza
Houve um tempo em que a riqueza era medida pelos bens. O sujeito que tinha um três-em-um, por exemplo, podia ser considerado rico. Em 1989 o tamanho do aparelho de som fez parte dos debates presidenciais. Por mais que seja obrigatório aos políticos declarar seus bens, ainda tem candidato que declara uma mixaria, quando tudo está escondido na “famiglia”. Qual a razão disso? Mas há sempre um motivo para esconder as coisas. Carros, casas, terras. Mas isso é outro assunto. Se o candidato tem família grande, pior ainda.
O que é riqueza
Antigamente, quem tinha mais televisores em casa ganhava. Hoje, ganha quem tem o maior. Esses exageros do consumismo. Só não são maiores porque as salas não comportam mais. Logo, o conceito de riqueza é muito relativo e muito “social”. Varia de acordo com o ambiente onde vives. Como bem diz o ditado, “em terra de cego quem tem um olho é rei”. É assim nos países pobres da África. Então, a riqueza é muito relativa, mas seus “sinais exteriores” podem ajudar o fisco a recuperar o que dele foi burlado.
Conceito de riqueza
No meu caso, minha riqueza é outra: meus filhos. Mesmo que eu não esteja obrigado a declará-los no campo de bens e direitos, tenho três almas a diariamente trazer novidades, aprendizados e novos pontos de vista. Contabilmente não dão receitas, só despesas e boas gargalhadas. Divertem, inspiram, abraçam e transformam. Metamorfose ambulante. Então, se um dia me perguntarem se sou ou se fui rico, responderei sem exitar: um pouco menos que meu padrinho de casamento, Guiomar Steffen, que teve quatro filhos e que hoje está de aniversário, mas já não é possível abraçá-lo.