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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

Marcos Leite

Outono e primavera: quem me dera!

Por Marcos Vinicius Simon Leite

Estamos nesta estação. Outono no Brasil, primavera em Portugal. Por aí, as folhas mudam o tom e as tardes aguardam os primeiros sopros do minuano. Por aqui, o verde irrompe os galhos secos e sobre nós, ao invés de amareladas folhas de plátanos, caem flores. Cerejeiras, camélias e magnólias.

O que o vento traz

Com as novas estações, o vento mistura pelo ar tudo o que pode. Há quem reclame das alergias assim como quem repare no perfume das flores, na eterna dicotomia da vida. Mas hoje, como um conto, vou expor o que comigo aconteceu. Estava começando meu almoço, numa esplanada ao ar livre, “ao pé” da biblioteca da universidade. Sozinho, sentei para assistir a entrevista do meu amigo Jeferson ao WW, quando ao meu lado surge uma pessoa, que parecia não caber em si. Por um instante, deixei o vídeo prosseguir sozinho, levado pelo vento, enquanto o entusiasta ostentava um tinto alentejano em mãos. Um convite.

O que o vento faz

Deixei meu programa de lado e passei a conversar com ele. Professor de filosofia medieval, da religião e da cultura, especialista em Santo Agostinho. Estava ali para receber um jovem cineasta. E eu, com a cabeça cheia de coisas, admirado em perceber como a inspiração se comporta numa hora dessas. Aceitei a gentileza de partilhar o vinho. Um verdadeiro privilégio. E como as flores que aqui caem, em meu colo caiu um livro: Poesia de Amor – Antologia, do poeta António Salvado. Um autêntico poeta português, que deixou este plano há exatamente um mês. O professor ao meu lado contou-me que havia prefaciado o último dos oitenta livros escritos por António Salvado. Isso sim é privilégio, pensei. Além do vinho, me ofereceu o livro. O meu privilégio.

O que o vento deixa

António Salvado, que até então não conhecia, dedicou a vida à literatura, à poesia, mais precisamente. Ganhou prêmios no Brasil, inclusive. Trabalho traduzido para o francês, castelhano, italiano, inglês e japonês. Sua primeira obra foi publicada quando tinha apenas quinze anos: Poemas da Alma. Lembrei de quando tinha esta idade e de como arriscava escrever sobre o amor. Por um instante voltei a ter quinze anos, entre o fildago professor e o jovem cineasta. O vinho era como um virar de página. Cada gole um aprendizado. Falaram de Fellini e de epicurismo. Lembrei muito de meus amigos. Uma experiência que muito rendeu. Não apenas esta coluna, mas meu comentário semanal na rádio local. Por isso me ponho a pensar: o que a vida quer nos dizer quando isso acontece?

O que o vento leva

Não posso negar. A vida tem essa magia. Esses pequenos milagres, oportunidades, acontecimentos. Na verdade, a vida é mesmo poesia. Tem horas que é triste, tem horas que não. Sintetiza os sentimentos em palavras. Simples assim. E os poetas? Ah, os poetas são o próprio milagre. Só eles têm essa capacidade, sensibilidade, esse poder de definir, sintetizar, como se estivessem a extrair do vento, as flores e, das flores o perfume e, num fechar d’olhos, palavras, que nos tocam com amor.

Curiosidade

Aquela que poderia ser uma história trivial, tornou-se, em verdade, um manancial de significados, desses que o vento, enquanto corredeira da vida, nos leva distraídos muitas vezes. O poeta e o prefaciante. Dois amigos. O primeiro, morre tão logo vê sua obra – antologia - nas prateleiras. O segundo, surpreso, com a perda do amigo, depois da honraria de prefaciar um grande poeta português. E eu, ali. Talvez, só para lhe contar essa história. Quem me dera! Ao menos agora, ficamos com a poesia de António Salvado, sobre o tempo.

“Todo o tempo é sagrado: embora no verão o sol requeime tanto que o corpo esquece a alma; embora no outono, do rosto a palidez augure e urda (tece) sombras dum súbito sofrer; embora no inverno a neve, a tempestade até aos ossos gelem, desígnios ou vontades; na calma primavera, tudo em cores germina e solícita a terra, o porvir adivinha. ”

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