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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

Marcos Leite

Medo de avião

Por Marcos Vinicius Simon Leite

A música, sempre ela a pautar nossa inspiração. Mas engana-se quem pensa que hoje vou falar de flores, ou melhor, das melodias de Belchior. Hoje vou dividir aqui um pensamento. Não se trata de uma conclusão, algo fenomenal. Tampouco uma definição. É mera ilusão. Um devaneio de como deve ser a porta do céu.

Pronto, morri.

Desde os tempos de Dante Alighieri que os mistérios da morte são desenhados e descritos pelos mais importantes artistas. Até mesmo Bob Dylan cantou às portas do céu em “knocking on the heavens door”. Mas hoje, digo que o lugar para onde vamos, tão logo desencarnamos, é um aeroporto. Não é exatamente nosso destino final, quer seja o céu ou o inferno de Dante e suas camadas. Me refiro ao guichê da morte. Aquele entremeio, aquela “hora de São Pedro”. Se você mora no interior, não fique tão tranquilo. Você vai ter de fazer conexão quando chegar a um Salgado Filho, Guarulhos, ou algo pior.

A primeira vez

Viajar sempre foi o sonho de muita gente. E houve um tempo em que andar de avião era, muitas vezes, melhor do que visitar o local de destino. Como ir a Cuiabá na década de 80, por exemplo. Não tinha nada de interessante além de andar num jato da Varig. Essa história me faz lembrar a primeira vez que conheci o antigo Salgado Filho. Minha tia Erna, irmã de minha avó, viajaria para lá, visitar o filho em Cuiabá. Então, ir ao aeroporto se tornou um evento de família. Aquele era um lugar mágico. Era como ir a um espetáculo. A aviação era glamorosa e respirar aquele ar sofisticado fazia um bem danado. As despedidas na sacada, os lenços brancos, o vai e vem da tripulação e aquele avião que subia e sumia aos céus. Era lindo. Uma magia que se foi, não existe mais, senão na memória. Viajar hoje ficou chato e tenebroso por conta desses aeroportos.

O aeroporto

Por isso que imagino o aeroporto como sendo aquela hora, ou local, que vem logo depois da morte. A gente chega em um lugar onde ninguém te conhece. Todos estão ali pelo mesmo motivo: a morte, ou melhor dizendo, a viagem. Invariavelmente, estão todos meio perdidos. Uns bem, uns mal. Saudade já é algo que se sente no ar. Não é permitido levar nada (igual quando morremos). Tudo é medido. Você passa pelo detector de metais como se fosse um confessionário de São Pedro, onde nenhum pecado é permitido. E não adianta os deixar dentro da mala. Há uma máquina de raios x que apita se você tentar enganar São Pedro.

Modernidades

É incrível como as coisas melhoram e também pioram. E os serviços aeroportuários são assim, chatos. São incontáveis os preparativos necessários para que se consiga entrar em um avião e chegar ao desejado destino. Se ao menos, durante esse tempo, tivéssemos ainda a simpatia do antigo Comandante Rolim ou mesmo o charme de uma Varig a nos aquecer com aqueles cobertores xadrez com dourado, tudo seria melhor, mas não. São novos tempos e sem Varig. Fique sabendo: quando morreres, tenha tudo direitinho se quiseres chegar ao seu destino. De preferência, não leve nada além de boas memórias. Nesse novo jeito de viver e de viajar, só uma coisa é certa: paciência e amendoim.

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