Até já!
Até já! Esta é a forma mais comum de como os portugueses dizem adeus. Amanhã, 19 de janeiro, meu pai completa 77 anos. Mas desta vez, parece que fui eu quem ganhou presente. Ganhei sua companhia, que durante quase 40 dias esteve “ao pé de mim”. Se quando a gente sai de casa, na vida adulta, o convívio diminui, morando noutro continente, a convivência resta mais do que prejudicada, fica impedida e restrita às chamadas de vídeo.
Fazendo as contas
E nesses quase 40 dias, a mim representou mais ou menos nove meses. Eu explico: seu eu fosse um daqueles que tem o privilégio de comer um churrasco com o pai a cada domingo, como muitos fazem, teriam sido 40 almoços de família, que dá mais ou menos nove meses. Tempo de uma gestação. Mas como ele mora no litoral e eu estava, até julho passado, morando naquela cidade próxima de Erechim, nossas interações se davam, em média, a cada 45 dias. Então, se eu multiplicasse os 40 dias em que ficamos juntos, pelos 45 dias que demoraríamos a nos ver novamente, esses meus 40 dias equivaleriam, em verdade, a 1800 churrascos de domingo, ou sessenta meses ou cinco anos. Essa matemática me conforta. Foram 5 anos de vida em pouco mais de um mês.
O que fizemos
Neste período, fizemos de tudo um pouco. Viajamos juntos (sua maior paixão). Conhecemos lugares novos e caminhamos bastante, coisa que ele sempre adorou fazer. Mas suas pernas já estão cansadas. Talvez ele tenha percorrido todos os passos de sua vida. Em 2009, caminhou os 830 quilômetros, entre Saint-Jean-de-Pied-de-Port, na França, até Santiago de Compostela, na Espanha. Percorreu o famoso “Caminho de Santiago”. E tudo isso em menos tempo do que dedicou a mim e minha família neste período de Natal e Ano Novo.
E agora?
Meu pai sofre de Parkinson. Há quatro anos lida com um câncer de próstata. Antes de vir, o oncologista lhe disse sobre a chegada da metástase. “Vai viajar, na volta a gente vê”, disse o médico. Olhando assim, para o “quadro”, seria muito triste. Muitos, inclusive, não fariam o enorme esforço que ele fez. Mas ele foi valente. Mesmo andando devagar, acabou ficando dois dias acamado no quarto do hotel em Sevilla.
Os últimos dias
Depois do seu aniversário, ficaremos juntos até o próximo domingo, em Lisboa, quando voltaremos, cada um para o seu lar. Não sei quando o verei novamente. O depois, não tem como saber. O que sei, é que foram dias inesquecíveis. Ele, que sempre foi muito ranzinza com certas coisas, parece ter deixado isso de lado. Foi paciente. Curtiu cada momento. Foi um parceiro e brincou por longas horas no sofá com meu pequeno Vicente. Tenho certeza que marcou a memória do menino. E como ele me disse: “Meu filho, é importante a gente planejar as coisas”. Mas como sou teimoso, não vou planejar nada. Aprendi que o melhor plano é viver, um dia de cada vez. Obrigado pai. Até já!