Crime e Castigo
Este é o nome de uma das mais importantes obras do escritor russo Fiódor Dostoiévski. O livro, conta a história de um jovem universitário, sustentado pela mãe, viúva e pela irmã mais nova. Atordoado das ideias, Ródion, acredita ter criado uma teoria: “A Teoria do Crime Permitido”. Não vou aqui contar a história do livro, cujo original tem mais de 500 páginas. Prefiro me ater à teoria, propriamente dita.
A Teoria de Ródion
Para Ródion, protagonista do livro, no mundo existem dois tipos de pessoas: as comuns, que ele chama de ordinárias e aquelas consideradas fora-de-série, que ele chama de “pessoas extraordinárias”. Também, na ideia dele, todas as pessoas devem se submeter à lei. Devem respeitá-la e também serem punidas em caso de desobediência. Mas essa regra não valeria quando uma pessoa “extraordinária”, que eivada de um propósito relevante, comete um crime para atingir seus objetivos.
Cortes do livro
Há um trecho, já no final da obra em que Ródion diz: “Meu pensamento foi mais tolo do que tantos outros, pensamentos e teorias que andam por aí. Basta olhar de maneira imparcial, que minha teoria não era tão estranha. É claro, pela lei, um crime foi cometido e o sangue foi derramado. Mas neste caso, qualquer bem feitor da história da humanidade que tenha tomado o poder, que tenha derramado sangue, deveria também ser punido. Mas esses benfeitores foram firmes em seus atos e mantiveram-se firmes e estavam certos de fazer isso, já eu não, por isso estou aqui (preso)”.
Sobre os tais extraordinários
Considero sim, que algumas pessoas são - de fato - extraordinárias. Penso sempre em um Einstein, numa Irmã Dulce, na Rainha Elizabeth, num Divaldo Franco e até mesmo no Renato Borghetti e no Yamandu Costa, gênios vivos da música gaúcha. São bons exemplos de pessoas fora-de-série. Mas vejam bem, são “de fato”, pessoas especiais, mas jamais serão “de direito”, extraordinárias. Logo, o fato de serem especiais, de terem um talento muito acima dos comuns, não os tornam “acima da lei”.
Comportamentos extraordinários
Mas há um problema nesse pensamento: quando os extraordinários são vaidosos. Lá vem ela novamente, a famigerada vaidade, o ego. A vaidade esconde a verdadeira alma da pessoa e quando estamos diante de alguém extraordinário e que, ao mesmo tempo é vaidoso e temperamental, estamos sim diante do perigo. Pior ainda, é quando este sujeito exerce ou tem a condição de exercer poder. Se é um astro de rock, pede seiscentas toalhas em seu camarim, por exemplo. Teoricamente, não faz mal a ninguém, a não ser à natureza. Mesmo assim, um ser extraordinário, quando vaidoso e poderoso é sempre um grande perigo para os comuns.
Fechando as contas
Por essas e outras é que deveríamos confiar na justiça. O problema é que nem sempre temos um agente da justiça agindo conforme a lei dos comuns e tudo fica confuso. Às vezes parece que temos a lei dos ordinários e a dos extraordinários. E quando isso acontece, ao extremo, o que vemos é a deturpação da ordem. Os precedentes aí estão. Chega a um ponto em que as pessoas se enojam das instituições, ficam cegas da razão, perdem o controle e até cometem crimes. Pela lei, quem comete um crime merece o castigo. Ou você é como o Ródion, personagem de Dostoiévski? Lembre-se que o livro foi publicado há 160 anos. Será que a humanidade não evoluiu? Estaríamos diante de um fenômeno antropológico ou a lei só deve valer para os comuns?