Perdoar e esquecer
Perdoar é o gesto mais nobre que o ser humano pode oferecer a um semelhante. Requer espírito elevado, conhecimento das coisas da vida e muita inteligência. Esquecer, em muito pode se parecer com perdoar, mas será que são sinônimos?
Os traumas
Para a psicologia, o trauma é uma resposta emocional, marcada na memória da pessoa que passou por uma situação indesejada, difícil e conturbada. Assim, quando o sujeito se depara com situações semelhantes à do trauma, sua mente aciona um gatilho emocional, provocando sensações negativas. Isso explica porque é quase impossível esquecer eventos traumáticos. Logo, há traumas passíveis de serem perdoados, mas impossíveis de serem esquecidos, vez que seu processo ocasiona um forte registro na memória.
Os medos
Os medos são gatilhos emocionais que procuram prevenir o sujeito de enfrentar situações traumáticas. Guarda muita relação com o trauma, seja ele próprio ou alheio. Quando descontrolado, funciona na memória como o próprio mecanismo do trauma. O sujeito nem sequer sofre a ação, mas por medo, acaba reagindo emocionalmente ao fato. É algo como um sofrimento preventivo. Em alguns casos, se não for possível lidar com a situação, a vida fica travada naquilo e a pessoa passa a sentir-se perseguida. Outra faceta do medo é a ansiedade persecutória, que ocorre quando o sujeito tem medo de sofrer vingança por algo que cometeu. São vieses da mente humana que se manifestam diariamente, sem que sequer possamos perceber.
Na bíblia
O binômio perdoar e esquecer não é encontrado de forma literal nas sagradas escrituras. Há várias passagens em que o perdão aparece e o esquecimento não. Porém, a interpretação bíblica requer o exercício do esquecimento. É como se o perdão – sem esquecimento – não valesse perante Deus. Isto porque o trauma e o medo, nos fazem acessar a mente e, uma vez que a acessamos, ficamos sujeitos às sensações desencadeadas pela memória. Neste viés, perdoar não prescinde de esquecimento, desde que ao revisitar situações semelhantes, a memória não ocasione emoções negativas. Assim, o sujeito que perdoa se liberta do que é ruim e passa a viver de forma mais tranquila.
A volta
Luís Inácio voltou. Teria o povo brasileiro perdoado seus delitos, ou apenas esquecido? Para pouco mais de 50% da população, diria que sim. Perdoado e esquecido. Para o restante, não. Assim como os eleitores de Lula também não esqueceram as falas de Bolsonaro. Com diz o novo presidente, a esperança venceu o medo. Seja como for, Lula fui perdoado por maioria, mas terá de lidar com a outra metade, que ainda não superou os traumas do passado.
Daqui para frente
O Brasil terá dias difíceis. De um lado, há um povo ferido. De outro, eleitores que viram em Lula uma forma de se vingar de Bolsonaro. Em comum, o trauma, a lembrança indesejada que tanto pautou as eleições. Ambos parecem esquecer do que é bom: o Brasil. Pelo que vimos no discurso de posse, ao invés de abrandar a situação, Lula mexeu na ferida. Pelo viés psicológico, usou argumentos vingativos, comum a quem sofre ou sofreu de ansiedade persecutória. É inconsistente para quem se propõe a unir o país. Pelo discurso, começa mal. Mas entre perdoar e esquecer, eu diria mesmo é que o povo tem memória curta. A partir de agora, este é o risco de Lula. Pela lógica, o povo vai esquecer Bolsonaro e Lula agora está preso na vitrine de sua própria vaidade. Boa sorte Brasil!