Cova da Beira
O nome parece esquisito. Gremistas simpatizam com ele, mas não é nada disso. Cova da Beira é o nome de uma rádio onde comecei a gravar pequenas colunas, como esta que nos acompanha desde 2021. Lá não escrevo, mas falo sobre literatura, um enorme desafio. Quem quiser me ouvir, basta procurar no Spotify por Rádio da Universidade UBI ou através do aplicativo “Rádios.Net”: Rádio Cova da Beira, 92.5 FM.
Saramago
Em meu primeiro programa, falei sobre o centenário de José Saramago. Foi difícil sintetizar a vida deste grande autor. Acabei ocupando um segundo programa. Mas do Saramago, o que mais me marcou é que ele batalhou a vida toda. Foi ferreiro, mecânico e desenhista. Viveu tempos difíceis, como a ditadura de Salazar. Seu primeiro sucesso “Levantado do Chão”, é de 1980, quando já tinha 58 anos. Depois disso é que vieram obras e mais obras, até que o Nobel de Literatura batesse à sua porta, em 1998. Por provocar um debate religioso, foi execrado em Portugal e deixou o país que tanto amava. Foi morar em uma ilha, com seu amor Pilar. Ateu declarado, escreveu na obra “Caim”, de 2009, que o deus da bíblia é vingativo, rancoroso, má pessoa e não é fiável (assim mesmo, com letras minúsculas). Concluí que, quem o lê sem o exercício de tentar compreendê-lo, cai em tentação, como se fosse uma pegadinha.
Garcia Marquez
Nos outros dois programas, falei de outro Nobel: Gabriel Garcia Marquez. Mais precisamente sobre a obra “Memórias de minhas putas tristes”. Neste livro, o autor conta a história de um velho e solitário jornalista, que ao chegar aos noventa anos, decide se obsequiar com uma noite de amor com uma jovem cortesã. Os planos parecem não dar certo e a história narra o desenrolar de uma luta tardia contra os próprios sentimentos. Do amor carnal para o amor puro. Numa passagem o protagonista diz: “o sexo é o consolo que a gente tem quando o amor não nos alcança”. Por aí já se pode ter a dimensão deste livro, que embora pequeno, tem muito significado. É uma espécie de “tradado sobre o envelhecimento”.
Eva Schloss
O próximo programa, que vai ao ar nesta quinta-feira, dia 22 de dezembro, dediquei à obra de Eva Schloss. Uma austríaca sobrevivente dos campos de concentração, autora do livro “Depois de Auschwitz”. O livro conta sua trajetória como prisioneira dos nazistas. Porém, ela o faz de forma leve, sem precisar fazer uso de julgamentos, que parece deixar na conta do leitor. Curioso é que, anos mais tarde, sua mãe acabou por se casar com Otto Frank, ninguém menos que o pai de Anne Frank. Aliás, é Eva Schloss quem deu continuidade à obra do Instituto Anne Frank, em Amsterdam. Essa é uma boa dica de leitura, a primeira que recebi do Marcio Simon, lá da Agridoce, ainda em 2018.
Livros
E para o Natal? Não há dúvidas. Os livros são o melhor presente. Com cinco reais é possível comprar um exemplar. Um privilégio, eu diria. Aqui em Portugal, um livro comum não custa menos de 10 euros, algo em torno de 60 reais. É por isso que eu sou fã dos livros – e da Agridoce. Com eles você consegue transmitir sentimentos, experiências, valores, histórias. Quase tudo na vida, se aprende pelos livros. Melhor ainda, não requer energia elétrica, não perece, não fica velho. Se não podes lê-lo num dia, podes lê-lo noutro. E se quiseres umas dicas de presente, procure um livreiro. Se estás sem tempo, procure na internet a lista do Jornal Le Monde, da França. Os 100 livros do Século XX. Vale a pena conferir. E como eu digo lá no rádio: “se era para ser só mais uma página, ficamos por aqui”. Feliz Natal!