Ary Toledo
Os mais velhos hão de lembrar, com nem tanto saudosismo. Ficou fora de moda. Mas houve um tempo em que o humor brasileiro era representado pelas piadas, nem sempre auspiciosas, de Ary Toledo. Sua abordagem geralmente apelava para os contextos sexuais. Era um tempo em que o feminismo se fazia presente na mulher objeto. Este era o meio lamentável delas buscarem a luz em uma sociedade machista e permeada de preconceitos.
Vai dar ou não vai dar?
Essa é uma anedota que tenho na memória. Ary Toledo a contava com desenvoltura. Em suma, sem querer usar o espaço para este fim, o script era de um homem, prepotente e soberbo, que levava em seu carro, provavelmente um daqueles Maverick seis cilindros, uma jovem para um local inóspito. Lá, o prepotente proferia sua covarde sentença nada romântica: vai dar ou não vai dar? Mas o humor de Ary Toledo, que nesta representação foi brilhante, contava que na cena havia um menino, escondido atrás da moita, gentil e puro. Testemunha a observar o assédio.
Representação
Todos sabem que a educação – e a deseducação - se dão por exemplos. Eis que o piá decide por copiar o adulto e fazer o mesmo com sua amiguinha. Em sua bicicleta, que devia ser uma Monark azul escuro da época, daquelas de freio traseiro a tambor, o guri convida a amiguinha a ir para o mato. Tal e qual fez o assediador. E lá, no mesmo lugar onde viu a cena do carro, proferiu a sentença machista, com sua voz ainda fina, que só o Ary Toledo era capaz de representar: vai dar ou não vai dar? A menina, otimista e inocente, a contrário do que fez a donzela, disse que dava. O menino, sem saber o que fazer, então diz: então... pega a bicicletinha pra ti que eu vou caminhando para casa.
Na vida adulta
Recentemente, uma pequena cidade gaúcha passou por uma situação semelhante. Um candidato a prefeito, inconformado com mais uma derrota em seu currículo, decidiu gastar seus vinténs para derrubar o candidato vencedor. Em verdade, ele não queria ser o prefeito. Covarde, queria mesmo era atingir seu adversário. Era uma questão pessoal, uma vingança, provavelmente. Tanto lutou que conseguiu. Contou com a graça do colegiado julgador que, dias antes da sentença, elevou ao cargo de desembargador, ninguém menos que o advogado dono da causa. Mas isso foi apenas uma coincidência, dessas que a justiça brasileira está farta mas insiste em dizer que é legal. Infantil como o menino da piada do Ary Toledo.
A pé para casa
Eis que a Dilma surge novamente para, como filósofa da humanidade, profetizar: quem ganhou vai perder e quem perdeu vai ganhar. Em meio a tudo isso, o prefeito foi cassado e um novo prefeito surge por detrás da moita. Ninguém imaginava. Assustado como o guri da bicicletinha, tem agora a missão de fazer por aquilo que não se preparou e que não aparenta ter vocação. A cena, verídica, é semelhante a do livro A Revolução dos Bichos, de George Orwell.
Sorte ou Revés
Ainda que mal saiba se expressar, como já foi nosso futuro presidente, o novo prefeito se viu assumindo o cargo. Sua sorte – ou revés - é estar rodeado de apoiadores, muitos deles advogados, tipo esses coiotes que vivem do dinheiro público. Personagens que a política brasileira é ás em produzir. Coitado do gurizinho. Inocente, escravo de sua vaidade, não conhece a maldade humana. Será o coringa a resolver os problemas daqueles que são incapazes de aceitar o resultado das urnas. Aliás, um tema bem recorrente na política brasileira. É triste reconhecer. Além de ter uma certa saudade do Ary Toledo, é preciso dizer que o exemplo é fonte de educação e progresso, ou de atraso.