A paz de Gilberto
Se tem alguém da música que eu admiro, é Gilberto Gil. Entra ano, sai ano, e ele permanece íntegro. Nada parece abalar a sua alma. Até mesmo quando alguns desvairados tentam hostilizá-lo, como fizeram aqueles brasileiros no Qatar. Se você não recebeu o vídeo em sua rede social, agradeça.
No aeroporto
Eu tive uma singela passagem com Gilberto Gil, vinte e tantos anos atrás. Foi quando num voo de São Paulo ao Rio, viajamos lado a lado, como se fôssemos amigos. Antes de entrarmos no avião, ainda naquelas salas de embarque apertadas e sufocantes do Aeroporto de Congonhas, em meio aquele tumulto, ouvia-se ao fundo um lindo piano a tocar, enquanto vozes e mais vozes atordoantes insistiam em ignorar a música. Reconheci na hora. Alguém tocava a música PAZ, de Zizi Possi. Parecia frágil diante da indiferença dos viajantes que pouco percebiam. Eram tempos mais tranquilos, reconheço, mas em meio ao frenesi de São Paulo, onde eu trabalhava, tudo fazia sentido. Quando encerrou a música, toda aquela gente foi para o avião. Foi quando me dei conta. Era ele, Gilberto Gil, quem tocava na sala de embarque. Um cavalheiro, pensei.
No avião
Na viagem conversamos pouco. Respeitei seu descanso. Ele já ostentava os cabelos brancos. Quando descemos e caminhávamos lado a lado até o saguão do Santos Dumont, as pessoas olhavam e não me reconheciam. Por óbvio. Naquele tempo, nem eu me conhecia. Era engraçado, eu parecia ser amigo do Gil. Ele foi adorável, assim como é sua música. O jeito baiano, cadenciado, parecia pouco se importar com o barulho de São Paulo. O piano talvez tenha sido o remédio para aguentar aquele momento. Gilberto Gil me pareceu ser um sujeito integral, desses que não se altera, mesmo quando está em uma padaria ou em um aeroporto. Estar ao seu lado me fez muito bem.
O ódio
Infelizmente, esse Senhor, brasileiro, de mais de 80 anos, que a tanta gente já alegrou com sua harmoniosa música, sofreu na pele a intolerância política. Ouviu xingamentos, impropérios e manteve-se calmo, como naquela tarde em São Paulo. Os inconformados até fotos tiraram com ele, enquanto vangloriavam-se de atacar um sujeito da paz e – incapaz – de cometer qualquer maldade ou revide. Agora entendo quando falam sobre o discurso do ódio. O que antes parecia mero “mi-mi-mi” eleitoral, como costumam se tratar duas torcidas rivais em dia de clássico, agora ficou claro. É ódio puro, insensatez. Pior de tudo, é que esses odiosos ainda têm coragem de gravar e publicar.
Até onde, até quando
Gilberto Gil portou-se como um monge diante do ataque. Não alterou seu semblante, não se defendeu, não atacou. Apenas esperou o ódio e o rancor baixarem para seguir seu caminho e objetivo, que por sinal era o mesmo do seu algoz: torcer pelo Brasil. Aliás, passei a desejar, mais do que nunca, que o Brasil vença esta copa. Sou um crítico desse novo futebol. Sou voto vencido. Mas se o Brasil ganhar a copa, talvez possamos viver um pequeno momento de alegria e paz. Seria bom se ela invadisse nossos corações. Por hora, vamos à música. Para acalmar os seus dias, seria bom repetir o mantra de Gil.
“Eu pensei em mim, eu pensei em ti, eu pensei em nós, que contradição, só a guerra faz, nosso amor em paz... Eu vim, vim parar na beira do cais, onde a estrada chegou ao fim, onde o fim da tarde é lilás, onde o mar arrebenta em mim, o lamento de tantos ais”.