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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

Marcos Leite

A letra K - de Kichute

Por Marcos Vinicius Simon Leite

A língua portuguesa tem lá suas nuances, seu charme. A começar pelo alfabeto. Quando fui para a segunda série do Colégio Pão dos Pobres tive uma inesquecível professora, chamada Édola Soares Zuffo. Nunca a esqueci. Confesso que sua simpatia vinha também da semelhança com o Zacarias, aquele personagem dos Trapalhões. Mas essa era uma comparação íntima, que o respeito me impedia de partilhar. Édola era amorosa demais. Sabia conduzir aquela turma com a experiência de uma anciã e a amorosidade de uma avó. Por isso, tornou-se inesquecível.

A letra K

E foi a professora Édola que, ao nos ensinar o uso das letras e do vocabulário, nos disse que no alfabeto tinha uma letra com som de “cê”, mas que se chamava “ka”. Ficamos surpresos. Segundo ela, também era uma letra do alfabeto. Vinha antes do “éle”. Era nova para os alunos recém-saídos do primeiro ano. Naquele tempo, só passava para o segundo ano quem soubesse ler e escrever. E Édola nos disse que só existia uma palavra escrita com a letra K: Kart. Puxa vida, uma mísera palavra. Precisava abrir uma vaga no alfabeto exclusivamente para ela? Devia ser muito importante, eu pensava. Mas o “kartismo” era esporte de luxo, muito distante da realidade dos alunos daquele inesquecível colégio.

Outras palavras com K

Ao escrever este texto, pesquisei e constatei que as palavras que começam com “k” são, em verdade, derivadas de estrangeirismos. Mas naqueles idos de 1981, éramos genuinamente brasileiros. Não existia o ketchup, embora eu lembre da mostarda na geladeira Steigleder azul lá de casa. Quilo se escrevia assim mesmo. Quilômetro também. Kiwi era uma fruta que só fui conhecer, nos anos 90. Mas o kichute, esse sim, eu não só conhecia como também usava. Quanto preconceito! O kart estava no dicionário e o kichute não. Onde eu morava, calçar um kichute era como andar armado, impondo respeito, ou seria medo? Ostentar um kichute gasto, com cadarços podres, era motivo de inveja. A gente respeitava quem tinha o kichute mais detonado. Demonstrava antiguidade, vanguarda. Em vez de vergonha, orgulho.

Os nomes com K

Os nomes com a letra K também apareceram com o tempo, aleatoriamente. Karina, Kellen, entre outros. Talvez, o mais comum fosse Katia. Kleiton e Kledir, por exemplo, fizeram muito sucesso naquela década de 80. E foi justamente uma Catia, bem raiz, que juntamente com uma Simone e uma Marcia (sem acentos de propósito), me proporcionaram uma grande surpresa no dia do lançamento de meu livro em Porto Alegre, na semana passada. Ao escrever a dedicatória, grifei o nome da Catia com K. Uma gafe perdoável, da qual ela já deve estar acostumada. Só fui perceber mais tarde, quando não havia mais tempo de corrigir meu vício, baseado no já costumeiro estrangeirismo.

O reencontro

Tudo isso para dizer como foi encantador. Foi especial rever essas três colegas de faculdade: Marcia Paradiso, Catia Bortoncello e Simone Brufatto. Apareceram de surpresa. Há mais de vinte anos não as via. Me eram muito caras nos tempos da faculdade, mas como relutei a aderir às redes sociais, perdi a partilha dessa quase metade de nossas vidas. Mas o que tudo isso quer nos dizer? Simples: que nunca é tarde. Que um abraço dado com o coração supera qualquer lapso de tempo. Que o amor e a verdadeira amizade, a tudo supera. Foi muito especial encontrar essas pessoas. Um presente. Pude reviver a boa energia que nos sustentava nos tempos de estudante da Faculdade de Ciências Econômicas. Por isso, de hoje em diante, vou confiar que as lembranças mais antigas se escrevem com “c”. Certo? Não. Teve o abraço do Thomas também, que há dez anos não via.

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