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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

Marcos Leite

O canto da saracura

Por Marcos Vinicius Simon Leite

Uma das melhores experiências que tive quando mudei para o interior foi aprender os ensinamentos dos antigos. Regras da natureza, de um tempo em que o empirismo era fonte de sabedoria e funcionava harmonicamente como ciência. Com os antigos, aprendi a observar a lua nova, a marcar a quantidade de chuva do ciclo vindouro. Mas entre tantos aprendizados, o canto da saracura foi o que mais me impressionou.

As sangas da minha vida.

Curiosamente, fazendo um retrospecto, me dei conta de que sempre morei perto de sangas. Elas sempre estiveram a serpentear minhas moradas. Infelizmente, as da capital são como velhas artérias, castigadas por um estilo de vida desregrado. Confesso que não dava o devido valor a elas. Ficaram sempre relegadas, marginalizadas, por mais encantador que fosse o seu inconfundível som. Até que aprendi, lá em Entre Rios do Sul, com a Sanga do Engenho, a observar o canto das saracuras.

O que diziam os antigos

O ensinamento da natureza diz que a saracura canta no baixo quando vai chover e, no alto, quando vai estiar. Pode estar um lindo e ensolarado dia, a durar até a noite escura ou estrelada. Mas se logo pela manhã a saracura cantou no leito da sanga, se prepare que vem chuva. Vale o mesmo quando temos aquelas semanas melequentas de umidade incessante. O canto da saracura, no alto, é o alento de esperança, a indicar os dias secos que virão. E se algo der errado, há outro sentinela do clima: o tico-tico. Se ele cantar em noite enluarada, da copa das árvores, é sinal de que o tempo mudará na madrugada.

Ceticismo

Testei todas essas teses antigas e curvei-me para a sabedoria popular. São mais do que verdadeiras, são instrumentos da natureza a nos proteger e ensinar. Depois desses quase dez anos vivendo à beira da sanga, acordei em Porto Alegre ao canto de inúmeras saracuras. Por um instante me senti acolhido. Era como se estivesse lá fora (no interior). Que sensação boa. O familiar canto da saracura, aqui, na conturbada cidade grande. Ao mesmo tempo que me senti em casa pelo seu canto familiar, me senti enganado: as saracuras da sanga daqui tem outros comportamentos. Cantam, mas não chove. Eis a razão de minha reflexão.

Nuances da natureza

Nessa primeira semana em Porto Alegre, foram muitos dias de sol, mas o canto da saracura, no baixo, foi presente em quase todos os dias. Mas porque aqui não choveu como lá? Deve ser porque a sanga daqui, ao invés de pequeninos peixes e frutos, tem lixo, muito lixo. Sobras de uma vida desregrada. Caminhei até a sanga, que passa atrás do meu prédio e descobri que elas vivem empoleiradas em seu habitat original. São inúmeras, com um comportamento citadino. Infelizmente, a ação do homem irracional da cidade tornou-as histéricas. Parecem cantar sem propósito e iludem os incautos que vem do interior.

O que dizem as saracuras daqui

Pensando bem, olhando o lixo que se acumula no leito do córrego, percebo que as saracuras, em verdade, não cantam. Elas gritam. São alertas de socorro. Nem que seja para uma reflexão pessoal, para que tenhamos cuidado em não acumular lixo, seja ele mental ou em nossas artérias, fruto de uma vida desregrada. Que possamos cuidar dos caminhos por onde passa a nossa energia vital. Sábia natureza! Salvem as adoráveis saracuras, que abrem mão da previsão do tempo para nos ensinar a viver, onde quer que estejamos.

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