Pedir e despedir
Volto aos encantos da língua portuguesa. Ela está sempre me surpreendendo com suas montagens e desmontagens de palavras. E a de hoje não poderia ser menos apropriada a mim: pedir e despedir. Pedir é fácil, todo mundo sabe, mas despedir tem um sentido amplo e abre os flancos para uma boa filosofada.
Pedir
O termo pedir provém do latim petere. Apresenta derivações conhecidas, como a “petição” nos processos e como o termo impedimento, situação em que somos proibidos de fazer algo, como gritar gol antes que o VAR o anule. Os pedidos de nossa vida podem ter muitas conotações e, não raro, estão presentes em nossas orações, como disse Jesus a Mateus: “Porque, aquele que pede, recebe, e o que busca, encontra” (Mateus 7:7). No meu caso, então, não posso me queixar. A vida tem sido muito generosa comigo. Sigo o meu propósito e a realização cobra o seu preço.
Despedir
Mas quanto ao termo “despedir” as conotações são bem mais complexas. Se pensarmos que possa ser como “pedir ao contrário”, clamamos por um impedimento, por exemplo. Pedir que não se fique doente, pedir que não morra, são exemplos. A saúde e a vida são inerentes ao ser humano. Então pedimos ao contrário, para que não soframos, não percamos a saúde e a vida. Logo, não estamos a pedir, estamos a impedir. Mas despedir soa mais como um desligamento, um desapego, uma demissão, uma passagem. É como se fôssemos desligados de alguma coisa, para sermos religados em outra. E foi bem isso que me ocorreu neste último final de semana, quando demos início à desmobilização de nossa casa. Nessa nova empreitada que se aproxima, é preciso não só desapegar, é preciso também despedir, no sentido de dizer Adeus, o que torna tudo mais complexo do que parece.
Até mais
A despedida é sempre uma ruptura. Há sempre uma raiz que insiste em estar mais apegada ao nosso coração. Daí a gente vai lá, faz o processo com tranquilidade, mas se depara com aquele aperto no fundo do peito, inesperado. São situações que a gente não previa, mas que tocam o nosso coração. Então é preciso dar um tempo, respirar e processar. Assim são as despedidas. É uma raiz que custa a se desprender do solo. E nesse processo todo, as vezes parece que estou vivendo o meu próprio velório. Não que a situação seja de tristeza. Não especificamente. Mas de onde estou, consigo imaginar, sem ninguém perceber, quais são as emoções, perdas e reações que envolvem a minha mudança, a nossa partida para Portugal.
Pedir e Despedir
Seja como for, esta experiência tem sido marcante. Olhar de pertinho o focinho dos meus cachorros e saber que talvez eu nunca mais os veja, dói no fundinho da alma. Sinto que eles percebem. Ousaria dizer que até me entendem, que estão solidários. Será? Olhar para os canteiros da minha horta, que tanto já produziu, também. As marcas ficam. Ver a casa, aos poucos, perdendo a sua alma, também faz parte dessa despedida. Tudo isso, multiplicado por cinco, dá a dimensão de todas as emoções que envolvem a nossa partida. São aprendizados que teremos de elaborar se quisermos evoluir. De fato, esse processo muito se parece a um velório. A vantagem de tudo é que estamos vivos e que toda esta experiência há de nos fortalecer. Que assim seja!