Nossos ídolos
Me considero um sujeito anormal. Não sou do tipo que idolatra as pessoas. Não ligo para tietagem. Sou tão estranho que tenho enorme dificuldade em receber elogios, por mais que a vaidade insista em habitar o meu conjunto, corpo e alma. E hoje, 27 de maio, numa sexta-feira fria, úmida e pardacenta recebi duas notícias que me causaram imensa estranheza. Mas como ensinou Fernando Pessoa: primeiro estranha-se, depois entranha-se.
Meu paradigma
E nesta sexta-feira, 27, nos deixou o plano, David Coimbra. Meu ídolo, ou paradigma, teve sua produção encerrada, como todos souberam. Por mais que eu não curta a tietagem, o David Coimbra é, sem dúvida, um paradigma, o meu atual paradigma. Acredito que todos os amantes da boa conversa e da boa leitura ficarão órfãos de suas colunas, dada a leveza de suas palavras. Eu também. Poucos nesse planeta me inspiraram mais, na escrita, do que o David Coimbra. Paulo Sant’Ana, talvez. Não foi – nem mais será – dessa vez que conhecerei o escritor, o jornalista e o ser humano que ele foi nesta passagem. Confesso que tinha esse sonho infantil: conhecer pessoalmente David Coimbra. São raras as pessoas públicas que têm tamanha autenticidade como ele. Ficarei com essa certeza. Foi um professor, e há de me inspirar por muitos e muitos anos. Se pudesse, mesmo não os conhecendo, abraçaria com todas as minhas forças, a Marcinha e o Bernardo, sua esposa e filho. Farei isso em oração.
Além-mar
Pouco antes de receber a notícia do David, recebi uma outra notícia, particularíssima. Em meu e-mail chegava por carta, vinda de Portugal, a confirmação que esperava. Em seu conteúdo, uma chave, uma oportunidade, um novo caminho, bem longe daqui: o Termo de Aceite de meu Mestrado em Jornalismo, na Universidade da Beira Interior. O documento que faltava para que eu pudesse solicitar meu visto e empreender nesta nova carreira. Uma alegria imensa, contida apenas pela perda do nosso querido David Coimbra. Não vou esquecer deste dia. Em minha carta de intenções entregue à Universidade, utilizei em seu fechamento, os dizeres de Fernando Pessoa: primeiro estranha-se, depois entranha-se. E foi bem isso que aconteceu nesta sexta-feira. Estranharei não ter mais as colunas do David, em que pese sua enorme obra. Há muito a ser lido. Ao mesmo tempo, entranhar-me-ei, doravante, nesse universo fabuloso das letras e do jornalismo, algo impensável – e até irresponsável – como pensam alguns. Mas tudo isso é mais forte do que eu.
Privilégio
Me resta, diante disso, estranhar agora, a falta do paradigma e entranhar-me no desconhecido. Meu novo mundo será o Velho Mundo. Um privilégio, por ser nesta vida, nesta existência. Tenho certeza, pelo que li das últimas de David Coimbra, que ele teria muito a partilhar conosco, mas não foi assim que aconteceu. Somos passageiros. Isso faz me sentir ainda mais grato. Sou um sortudo, um afortunado, que Deus permitiu mudar de país, começar uma nova profissão, conhecer novos amigos, deixar a família e a minha segunda cidade. Tudo isso, quem sabe, por causa de um ídolo. Obrigado David! Vou com fé!