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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

Marcos Leite

Abandono digital

Por Marcos Vinicius Simon Leite

“Invenções há, que se transformam ou acabam; as mesmas instituições morrem; o relógio é definitivo e perpétuo. O derradeiro homem, ao despedir-se do sol frio e gasto, há de ter um relógio na algibeira, para saber a hora exata em que morre”.

De trás para frente

Hoje, começo minha crônica pelo fim, lembrando as palavras de Machado de Assis, do livro Memórias Póstumas de Brás Cubas. Mas porque razão, pelo fim? Por ser necessário, por ser importante, para que tomem conhecimento. Estão matando nossos velhos, mas não é de covid, nem de câncer. Estão matando de solidão, de abandono ou de loucura.

Estive por Porto Alegre e no final de semana que passou, atendi meus antigos clientes de imposto de renda. Além da revisão anual, percebi uma queixa comum em meus anciões e isso me surpreendeu. Percebi que nossos velhos estão sendo abandonados por conta da tecnologia. Imagine! São senhas e mais senhas, logins, páginas de acesso e tudo mais. Uma infinidade de facilidades que em verdade são um meio de tortura aos mais velhos. Tarefas que antes eram prazerosas, como ir ao banco, não existem mais. Saíram da clausura da pandemia e não reconheceram mais seus ambientes de vida. Tudo agora é digital e se torna uma tortura para eles.

Idade da pedra

É preciso entender e lembrar. Quem hoje tem oitenta anos e morou no interior, por exemplo, aprendeu a escrever numa pedra. Sim, as crianças do “Grupo Escolar” escreviam em pedras, como um tablet. Depois lixavam e escreviam novamente. Nada ficava na memória da pedra. Era tudo na mente. Essa mesma geração, conheceu a pílula anticoncepcional, a televisão e, através dela, viu o homem pisar na lua. Eles viveram todas as invenções e chegaram até aqui. Porém, para suas infelicidades, suas vidas, muitas delas bastante úteis ainda, estão se esvaindo em sistemas de informações. E você, ainda não se deu conta disso? Então pergunte ao seu pai ou sua mãe, que tem mais de 65 anos, se eles sabem como obter o documento do carro, que era verdinho e vinha pelos correios. Pergunte a eles se são bronze, prata ou ouro no GovBR. Experimente dizer para os seus que se forem pegos dirigindo sem o documento o carro poderá ser guinchado. Sem contar os golpes que se multiplicam no ambiente digital da terceira idade.

Tecnologia que aproxima e afasta

Ao mesmo tempo que a tecnologia aproximou as pessoas e facilitou a nossa vida, não podemos esquecer de quem batalhou a vida toda para que pudéssemos chegar aqui. Hoje, esses incansáveis guerreiros estão sendo ignorados pela sociedade e abandonados pelo sistema moderno de vida. É assim para acessar a aposentadoria ou para fazer uma compra. É assim para tudo, até mesmo para declarar o imposto de renda. Eles não recebem mais seus informes, está tudo na porra da nuvem. Não há problemas nisso, desde que outros meios sejam permitidos aos nossos queridos velhos, a quem peço desculpas pelo palavrão. Tudo é digital.

Fora da ordem

Velhos: eu até não curto muito esse termo, mas acho carinhoso. E esse meu texto de hoje, deslocado e escrito assim, totalmente sem estilo, fora de ordem, é de propósito. Fiz para que você leitor, se coloque no lugar de uma pessoa mais velha e observe: se eles estão quietos, não é porque estão bem. É porque estão abandonados, ignorados pela sociedade, sofrendo em silêncio, sem saber qual é o mal que lhes aflige. Ainda bem que temos o jornal de papel. Ninguém mais lê, alguns dizem, mas os velhos sim. A eles, todo o nosso respeito. Eu estou com vocês, nem que seja aqui, no jornal.

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