A garagem do Carlitos
Não há nada mais íntimo para um homem do que a sua garagem. Isso, nos tempos em que os homens tinham garagens. Hoje, na modernidade, os homens e suas mulheres têm vagas. Basta ver os anúncios dos imóveis. Mas nem sempre foi assim. Houve um tempo em que os homens podiam ter gigantescas casas, com incontáveis banheiros, mas no fundo no fundo, o que lhes importava era a garagem. Tem garagem? Só isso interessava aos homens.
A fortaleza da garagem
As mulheres de antigamente, por sua vez, eram criadas para terem suas casas sempre arrumadas e decoradas. O comportamento delas beirava à neurose. Tudo em nome das aparências. Era um tempo em que os homens trabalhavam e as mulheres se dedicavam a este esporte: arrumar a casa e cuidar da descendência. Sim, era como um esporte. Numa competição velada, os playoffs, se davam através das visitas mútuas, sob o pretexto de “tomar um chá”. E assim, exibiam-se, umas para as outras. De outra banda, o lado sombrio da causa, ou melhor dizendo, da casa, se restringia à garagem. A bagunça, o aspirador de pó que estragou, as ferramentas, incontáveis alicates e chaves de fenda, esses pertenciam à garagem. Tipo o lado oculto de um instagram de hoje. Tudo que destoasse da casa parava lá. Era um tempo em que não havia obsolescência programada e os bens eram “duráveis”.
Os segredos da garagem
Então, nos finais de semana, os maridos, meros figurantes da casa, gozavam seu descanso, aonde? Na garagem. Eis aí uma grande diferença entre homens e mulheres da segunda metade do século passado. A eles, bastava a bagunça, organizada ou não. Meros doze metros quadrados eram suficientes ante os 100, 200, 300 ou mais metros quadrados sob a tutela feminina. A garagem era afastada da casa. De preferência com um portão que pudesse manter tudo bem guardado. Enquanto nas paredes da casa haviam obras de arte e esvoaçantes cortinas, as da garagem ostentavam os calendários da Pirelli. Além de mostrar sensuais corpos femininos em meio a latas de óleo, e “outras” paisagens, passavam-se os anos e os calendários permaneciam expostos. O controle do tempo era só pretexto. O que importavam eram as curvas e silhuetas femininas para reforçar a masculinidade do lugar. As garagens tinham alma, identidade. Ambientes impregnados de testosterna, num tempo em que os homens usavam aqueles bigodões, tipo o do Olívio Dutra.
O lado antropológico
Está certo, deixei escapar a questão central. Porque os homens cultuavam suas garagens? Ora, pela mesma razão de as mulheres cultuarem suas casas. Porém, os homens, sempre foram mais frágeis que as mulheres, até naquele tempo. O ambiente aparentemente hostil, em verdade, era uma espécie de porto seguro, onde os homens poderiam livremente se esconder, viver sua essência de eterna criança, ao passo que as paredes das garagens serviriam como o útero materno. Qual a razão de, até hoje, o ronco de mais de seis cilindros encantar os homens? Eu tenho uma teoria: é o som do ventre, dos batimenos cardíacos da mãe. Ouça um coraçãozinho de um bebê a bater numa ecografia da gestante e você validará esta tese. Assim eram os seis cilindros, assim eram os V8 antes da crise do petóleo do final dos anos 70. Bastava ouvir o inconfundível ronco. Há quem diga, que devido a ordem de explosão dos cilindros, um V8 da Chrysler, que equipava os Dodge Charger R/T, os Dodge Magnum e outros beberrões, tem ronco diferente dos V8 da Ford, que equipavam os Mavericks, Galaxi e F-100.
As garagens da minha vida
Jamais vou esquecer da garagem do Carlitos. Melhor amigo de meu pai, falecido em 2006. Ele mantinha dentro dela uma Chevrolet Veraneio azul claro (seis cilindros), 1969. Fazia todos os reparos. Era extremamente caprichoso e meticuloso. Mas não era a garagem que me encantava. Ela era apenas o cenário. Adentrar naquele recinto era como ir ao cinema. Cada milímetro daquela garagem guardava uma passagem, uma aventura, no que o Carlitão era mestre em contá-las. Tudo isso, para reafirmar o quanto nós, homens, somos em verdade, eternos meninos em busca de aventuras. A garagem era o porto seguro da insegurança masculina, das incertezas que só o exame de DNA foi capaz de sanar. Quantas histórias habitaram as garagens, que mais pareciam consultórios de autoconhecimento. Pobres homens do passado. Seus bigodes nunca esconderam que a fortaleza, esta sim, sempre esteve no coração das mulheres, especialmente daquelas que não se apresentavam em calendários.