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Blog do Marcos Vinicius Simon Leite

Entre cabungos e escarradeiras

Por Marcos Vinicius Simon Leite

Volta e meia, algum saudosista, como eu, insiste em dizer que “antigamente” as coisas eram bem melhores. Por óbvio, sempre que comparamos dois tempos distintos, apontamos melhorias e pelhorias, como dizem os caboclos mais antigos do interior. Voltando no tempo, ao menos uns 150 anos, as cidades em desenvolvimento tinham crônicos problemas sanitários. Cresciam desordenadamente e os padrões do saneamento básico eram primitivos. Os povos viviam a chamada tragédia dos comuns.

A patente

Lembro a primeira vez que visitei meus parentes do interior. Eles tinham a “patente” afastada da casa. Era uma sombria construção de madeira onde os excrementos humanos caiam e se decompunham. Lá em baixo, onde os dejetos se acomodavam, habitavam moscas e outros seres decompositores, estes sim, amigos da natureza. Vivendo minha primeira infância, fiquei horrorizado quando adentrei naquela construção pela primeira vez. Meu intestino citadino entrou em “modo avião” e assim permaneceu até que eu reencontrasse um assento cerâmico. Os livros de ciências dos anos 80 ainda ensinavam que a patente deveria ficar em um nível inferior ao do poço de água, para não haver contaminação. A patente era matéria de sala de aula.

Os cabungos

Nas cidades, diferente do campo, os mais abastados descobriram uma forma mais higiênica de transpor seus dejetos. Foi então que a patente foi agregada ao quarto de banho. Logo abaixo do “cagador”, havia um barril onde os excrementos se acumulavam e, uma ou mais vezes por semana, escravos e ex-escravos faziam a troca dos barris cheios, por outros desinfectados. O sistema de coleta tratava de expurgar a matéria pútrida sabe-se lá em que leito de rio. Era uma espécie de banheiro por assinatura. Cabungueiros, eram os carregadores desses barris, os cabungos. Uma profissão complicada naqueles tempos em que a medicina era incipiente. Se você não consegue se imaginar fazendo esta tarefa, alugue um motorhome. Está na moda. Quando seu “cassete” encher, terás que fazer o mesmo que os cabungos, mas com um pouco mais de tecnologia e sofisticação, ainda que a matéria excretada seja a mesma.

Escarradeiras

No mesmo tempo passado, havia um costume muito nojento, porém aceitável. Cuspir, ou melhor dizendo, escarrar. Era uma época onde a tuberculose ceifava vidas sem piedade. Diziam que era a moléstia dos românticos e dos apaixonados, das pessoas sensíveis, como os poetas e escritores. Tipo os que escrevem artigos em jornais. Tempo em que o fumo era vendido com propriedades medicinais. Doenças respirtatórias, como a Covid de hoje, exigiam dos infectados sua expectoração. O melhor remédio era por para fora. E, para não sairem escarrando em qualquer lugar, principalmente nas repartições públicas, haviam as “escarradeiras”. Ficavam geralmente ao lado de suas suntuosas escadarias de mármore. O sujeito, ao tomar fôlego para subir as escadas, dava aquela fungada e escarrava. Antônio Leitão Pilar, avô da minha esposa, tinha este complicado ofício: limpar escarradeiras. Dedicava seu labor na centenária Faculdade de Agronomia da antiga Universidade de Pôrto Alegre, hoje UFRGS.

Modernidade

O tempo passou. Os sistemas de esgoto sanitário melhoraram e os cabungueiros perderam seus empregos. As doenças decorrentes da falta de saneamento foram controladas. A tuberculose, a muito custo, tornou-se uma doença comum e tratável, não com o advento da penicilina, mas com os antibióticos que vieram depois dela. Tudo isso explica a razão pela qual a expectativa de vida aumentou e o Vô Leitão precisou ser realocado em seu ofício. Vivemos o fim da “tragédia dos comuns” daquela época. Temos as tragédias atuais, que não existiam naquele tempo, mas isso é assunto para outro dia. Pensando bem, é bom visitar o passado, mas dispensar uma folha dupla, num asseado banheiro, hoje em dia, é algo impensável. E assim caminha a humanidade. Talvez isso explique porque os jovens sejam tão aficcionados por tecnologia. Memória genética. Sejamos gratos!

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