Como matar um amigo
Na minha coluna de ontem, contei uma antiga história, que se passou com meu mais antigo amigo. Também falei do tempo em que estivemos afastados, por essas bobagens da vida. Corri um sério risco de perder um amigo. E, se ontem contei do roubo do fusca, hoje vou contar como se faz para matar um amigo.
Amigos novos
Em primeiro lugar, é importante classificar e diferenciar os amigos. E a melhor maneira de fazê-lo é separando as amizades, entre as novas e as velhas. Os amigos novos são aqueles que surgem em nossa vida, quando acreditamos não precisar de mais deles. Nossas experiências de vida já nos carrearam daqueles que guardamos na conta dos importantes, os amigos velhos. Mesmo assim, nos sentimos como a casca de uma semente. Basta que certos fatores se alinhem e pronto! A energia da amizade rompe a casca e dá origem a uma nova planta, uma nova amizade, por assim dizer.
Amigos velhos
Os amigos velhos, por sua vez, são como aquelas árvores frondosas. Mesmo as que têm os galhos retorcidos, passaram por provações, momentos difíceis de chuva, sol e até abandono. Resistem ao tempo e continuam a colher, do seio da terra, a energia vital. Não é preciso regar amigos velhos. Não é nem mais preciso “podar”. Mas é preciso presença. Basta uma oportunidade e tudo volta ao normal. Um olhar, um sorriso, uma voz. Qualquer um desses eventos faz a gente esquecer que o tempo passou. É assim com os amigos velhos. Ficar longe deles, é uma bela maneira de perder tempo e vida e, num reencontro, a magia da amizade restabelece tudo, cura tudo. E como é bom.
Quem ama cuida
E nessa tal classificação, entre novos e velhos, reside algo super importante: o cuidado. Por isso, se você conheceu alguém interessante e se essa pessoa fez brotar em seu coração algo de bom, cuide dela. Muita gente cruza em nosso caminho. Eis a razão pela qual, devemos “regar” as amizades. Cuidar delas como uma plantinha, sucetível a muitas coisas, capaz de resistir a certas intempéries, mas incapaz de viver sem o cuidado, sem a presença. Não se trata de mandar mensagens de bom dia ou curtir algo na rede social. Isso é artificial, é vazio. É preciso dedicar atenção, buscar entender. Empatia na prática. Um telefonema, um encontro, um desencontro. Tudo vale quando a intenção é boa.
Ao final
Hoje, quando sinto ter atravessado mais da metade da expectativa de vida, relembro uma frase de Cristo, dita aos apóstolos, às portas de Damasco: “Eu lhe mostrarei quanto lhe cumpre sofrer por causa do meu nome”. Pelos amigos, nutrimos o amor e não raro, sofremos por eles. Humberto Rohde, biógrafo de Paulo de Tarso, sentencia essa passagem dizendo: “A mais amarga das amarguras é a que nos propinam os nossos amigos. Os outros dissabores nos ferem, por assim dizer, de fora, ao passo que esta nos atinge de dentro e penetra as íntimas fibras do nosso ser”. Por isso, seja um amigo novo ou um amigo velho, não perca tempo! Faça parte da vida dele. Ligue, encontre, provoque. Regue cada nova planta da amizade com o tempero do amor. Não espere pelo outro, apenas cumpra o seu dever e faça a sua parte. E transforme tua vida num imenso jardim.