Roubei um fusca
Ainda no final do ano passado, assistindo com meu filho Vicente o “filme da vaca”, como ele chama o desenho “O Segredo dos Animais”, lembrei de uma história que se passou comigo lá nos idos de 1988: o dia em que eu roubei um fusca! Meu amigo Ronnie, mentor desta façanha, já nem lembrava mais do que ocorreu naquela noite de agosto.
O planejamento
Basicamente, eu estava em casa. Já era consideravelmente tarde, algo em torno das 21 horas. O Jornal Nacional já havia terminado. O telefone Ericson, de disco, tocou e eu mesmo atendi. No outro lado, meu amigo Ronnie, acompanhado do vizinho Diego. Eles queriam a todo custo “dar uma banda” no Fuscão olho-de-peixe da mãe do Diego, mas não sabiam dirigir. E foram assertivos, disseram que eu deveria dirigir e apelaram para minha masculinidade, algo comum naquela época. E minha prodigiosidade foi usada para o mal, o que convenhamos, acontecia e muito nos anos 80.
Na saída correu tudo certo, sem imprevistos e logo estávamos rodando pela Mário Totta, zona sul de Porto Alegre. O Ronnie, num ar de gangster cravou: vamos visitar o André, que morava na mesma rua, cerca de um quilômetro avante. O problema é que ele morava entre duas lombas, por onde desciam aloprados ônibus do Expresso Cambará, vazios indo para o fim da linha. Era como estar na parte baixa da montanha russa. Sinistro.
A sucessão de erros
O André não estava e precisei fazer o retorno numa garagem. Imbiquei o Fuscão 72 na entrada de uma casa e, ao engatar marcha à ré a alavanca escapou fazendo o flamante avançar. Acabamos derrubando o portão da garagem lomba abaixo. Foi um barulhão e só deu pra ver as luzes acendendo, cachorro latindo e aquele pavor batendo. Nesta hora um anjo deve ter trancado o trânsito. Virei todo o volante e dei a ré e, é claro, bati numa árvore de raspão. Engatamos a primeira e voltamos assustados para casa. O Fusca roncava como um Porsche. Eu, enquanto capitão da nau, decidi pelo fim da presepada. O detalhe é que o besouro não sofrera nenhuma avaria, mas o raríssimo farol olho-de-boi perdeu sua metade. Ficou como uma meia-lua. Voltamos e estacionamos o Fuscão no sentido contrário. No outro dia o Ronnie precisou dos préstimos de sua avó para distrair a dona do carro, enquanto ele e o Diego o colocavam na posição original, de forma que a Maria Helena, sua dona, nada percebesse.
Como se mata um amigo
Você deve estar se perguntando, porque estou contando essa história. É porque o Ronnie, que ontem completou 50 anos, é meu mais antigo amigo em atividade. Atingiu a idade que o saudoso Lauro, seu pai, tinha quando faleceu. Mas nossa amizade não foi sempre assim, perene. Tivemos um período, recente, diga-se de passagem, em que deixamos de procurar um ao outro. Foram 12 anos de silêncio. Eu pensando nele, ele pensando em mim, mas em total silêncio. Em 2020 o procurei novamente e foi maravilhoso reencontrar o meu mais antigo amigo. Nada havia mudado entre nós. Absolutamente nada. E porque a nossa amizade não morreu? Isso eu conto amanhã, na coluna de quarta-feira. Talvez você aprenda a não matar um amigo. Parabéns Ronnie! Se não fosse você eu não saberia o que é a vida sem riscos, tua frase da época.